A cena no Palácio do Planalto, em 10 de julho, revelou uma contradição que atravessa a política industrial e externa do governo: ao mesmo tempo em que o presidente reconhece um capital técnico e institucional disponível no país, admite que falta ao Brasil aquilo que pode transformar potencial em resultado concreto — uma decisão política clara. Essa é a essência do desafio sobre minerais críticos e terras raras, insumos estratégicos na transição energética e no setor tecnológico.
Na reunião com ministros e especialistas, o presidente fez observações sobre o papel da China e dos Estados Unidos na corrida por esses recursos. Ao descrever a China como obcecada por monopolizar conhecimento e tecnologia associados às terras raras, e ao comentar a postura do governo americano, Lula contribuiu para o enquadramento geopolítico do tema: não se trata apenas de geologia e siderurgia, mas de poder e influência no tabuleiro global. Afirmar isso não é demérito — é reconhecer que decisões minerais hoje reverberam em segurança econômica e soberania tecnológica amanhã.
O ponto mais relevante, contudo, foi a autocrítica implícita. Segundo o presidente, havia a impressão de que o Brasil estava quase analfabeto sobre o tema. O diagnóstico mudou: o país dispõe de conhecimento técnico, centros de pesquisa e estrutura institucional capazes de avançar. O problema, nas palavras dele, não é a ausência de competência; é a falta de um direcionamento estratégico, de um projeto de Estado que traduza expertise em cadeia de valor.
Essa distinção entre capacidade e vontade política é determinante. Ter reservas minerais e universidades que as estudam não garante refinarias, fábricas de componentes ou cadeias industriais que valorizem a matéria no mercado internacional. Impulsionar processamento e industrialização exige escolhas explícitas: incentivos, regras claras, investimentos em infraestrutura, marco regulatório e políticas de conteúdo local. Sem isso, o Brasil seguirá exportando matéria-prima e deixando valor agregado lá fora.
Há, claro, um tabuleiro externo que complica decisões apressadas. O governo federal recusou este ano uma proposta americana para formar uma aliança visando produzir e refinar minerais críticos. A justificativa oficial foi a preservação da autonomia nacional. Não há como negligenciar essa preocupação: acordos que tragam tecnologia também podem impor dependências e condicionamentos. Mas recusar uma oferta sem uma alternativa estratégica bem desenhada pode transformar postura defensiva em inércia.
No Congresso, avanços foram dados: a Câmara aprovou um projeto para criar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, prevendo um fundo garantidor e o instrumento de crédito tributário de 5 bilhões de reais para estimular processamento local. A proposta agora aguarda o Senado. É um sinal de que o debate técnico avançou para o legislativo, mas leis desenhadas sem execução administrativa e financiamento consistentes tendem a ficar no papel.
O que se espera, portanto, é menos retórica geopolítica e mais arquitetura de política pública. Defender que o Brasil não seja meramente exportador de matéria-prima é correto. Dizer que o país possui capital intelectual é reconfortante. Mas é insuficiente se essas afirmações não forem acompanhadas de decisões concretas: definir metas industriais, alinhar ministérios e agências, destinar recursos e negociar parcerias que preservem autonomia enquanto aceleram transferência tecnológica.
A disputa entre Pequim e Washington é real e impõe escolhas estratégicas. Para o Brasil, o risco maior não vem tanto das ambições externas quanto da capacidade interna de converter vantagem natural em desenvolvimento. Se o governo quer de fato transformar o potencial em indústria, precisa assumir que a soberania econômica se constrói com planejamento e política, não apenas com retórica crítica sobre rivais estrangeiros. Aos técnicos e aos mercados, cabe agora cobrar da política as decisões que transformem promessa em projeto nacional.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/10/lula-diz-que-china-e-obcecada-em-ser-a-unica-a-ter-conhecimento-sobre-terras-raras-e-trump-tem-inveja.ghtml