Os limites do capital político de Flávio Bolsonaro: a direita sem-pai se afasta

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Os limites do capital político de Flávio Bolsonaro: a direita sem-pai se afasta

Pesquisa Quaest revela erosão do apoio fora do núcleo bolsonarista e mostra vácuo entre as alternativas da direita

15/jul/2026 6 min de leitura 39 visualizações

Política

Flávio Bolsonaro perde força fora do núcleo bolsonarista, aponta Quaest

A mais recente sondagem da Quaest, divulgada na quarta-feira (15), acendeu um alerta para a campanha de Flávio Bolsonaro: o senador mantém domínio quase absoluto entre os eleitores identificados como bolsonaristas, mas começa a perder terreno entre quem se declara de direita sem adesão ao bolsonarismo. Esse movimento revela duas fragilidades simultâneas — dependência de uma base restrita e escassez de opções competitivas no campo conservador que possam compensar a perda de apoio.

A queda entre a direita não bolsonarista

0%
apoio atual de Flávio Bolsonaro entre eleitores de direita não bolsonarista — ante 74% em maio

Os números são didáticos. No segmento definido como direita não bolsonarista, o respaldo a Flávio caiu de 74% em maio para 54% agora. Para efeito de comparação histórica, naquele grupo ele tinha 45% em dezembro, quando formalizou a pré-candidatura com o apoio do pai.

dez/2025
45%
mai/2026
74%
jul/2026
54%

Entre os autodeclarados bolsonaristas, porém, a taxa de apoio se mantém inabalada acima de 90% desde fevereiro. Ou seja: o eleitorado mais fiel permanece coeso; quem não é bolsonarista, porém, demonstra maior suscetibilidade a choques políticos.

Os gatilhos: Dark Horse e os vídeos de Michelle

O episódio conhecido como Dark Horse — o filme sobre Jair Bolsonaro que passou a ser associado a movimentações financeiras e mensagens comprometedoras envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — e as revelações sobre negociações para financiar a obra funcionaram como gatilho político. Ao mesmo tempo, a divulgação de vídeos pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em que ela afirma ter sido maltratada e humilhada, contribuiu para ampliar fissuras na imagem pública do clã.

Ver como o eleitorado reagiu aos vídeos de Michelle Bolsonaro A pesquisa aponta que metade do eleitorado já tinha conhecimento do vídeo. Entre estes: - **42%** se disseram mais simpáticos à versão de Michelle - **18%** se alinharam mais ao senador Esses dados não provam causalidade definitiva, mas deixam claro que episódios pessoais e escândalos têm capacidade de mobilizar desaprovação fora do núcleo duro.

Lula segue à frente na amostra nacional

Lula (PT)
40%
Flávio Bolsonaro
28%
Ronaldo Caiado
4%
Renan Santos
3%
Romeu Zema
2%

Considerando a amostra nacional, o petista Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 40% das intenções de voto, frente a 28% de Flávio Bolsonaro. A polarização entre essas duas figuras persiste, em grande parte, porque as alternativas de direita ainda não decolaram. Entre eleitores de direita não bolsonarista, Zema alcança 6%, Caiado 5% e Renan 4% — percentuais modestos para quem pretende disputar espaço.

Ver o índice de desconhecimento dos nomes alternativos - **44%** dos entrevistados não sabem quem é Ronaldo Caiado - **50%** desconhecem Romeu Zema - **77%** não conhecem Renan Santos Sem nome, não há campanha que ganhe tração; sem tração, a disputa fica polarizada entre os dois polos já conhecidos.
0%
de indecisos na pesquisa atual — ante 5% em maio

O aumento dos indecisos é sinal de instabilidade e de que parte do eleitorado prefere esperar antes de se comprometer.

O duplo desafio de Flávio

Para a campanha de Flávio, o desafio é duplo. Primeiro, recompor o apelo junto à direita não bolsonarista, um bloco que o havia elevado a patamares maiores e agora recua. Segundo, transformar eventos adversos em provas de que há capacidade de responder e oferecer propostas além do vínculo familiar e das controvérsias públicas. Do ponto de vista estratégico, depender quase exclusivamente dos bolsonaristas cria um teto eleitoral difícil de romper numa disputa que exige ampliar alianças.

Do ponto de vista do país, a foto que emerge é a de uma direita ainda sem coesão suficiente para apresentar uma alternativa unificada ao PT fora das linhas já consolidadas. Se as lideranças conservadoras não conseguirem converter reconhecimento em confiança e manter a base ampliada, a disputa corre o risco de se cristalizar em torno de uma polarização previsível, com pouco espaço para agendas de centro-direita renovadas.

A enquete da Quaest não decreta destinos, mas evidencia que a polarização brasileira continua moldada tanto por lealdades inquebrantáveis quanto por eleitores pragmáticos e sensíveis a escândalos. Resta ver se Flávio Bolsonaro encontrará uma rota de recuperação que passe pela reconquista dos descontentes ou se a falta de alternativas consistentes permitirá que o pleito permaneça bipolar até a eleição.


Fonte: g1.globo.com