A recente troca de farpas em São Paulo — com o governador criticando a “origem” política de Marina Silva e Simone Tebet, e Fernando Haddad reagindo publicamente — é sintomática de uma campanha que prefere moldar narrativas identitárias do que enfrentar projetos. Ao qualificar as declarações de Tarcísio como uma agressão injustificada contra duas mulheres que já ocuparam o Senado, Haddad não apenas defendeu as candidaturas como também tentou deslocar o foco para o terreno do respeito e da disputa de ideias. O que está em jogo, porém, é maior do que cortesia retórica: é a estratégia de deslegitimar adversárias via regionalismo eleitoral.
As observações do governador foram proferidas durante um ato em que também participava o deputado Guilherme Derrite, pré-candidato ao Senado, e surgiram após levantamento de intenção de voto apontar Marina e Tebet à frente dos nomes apoiados por Tarcísio. A crítica — de que as duas “não começaram aqui” e teriam recebido um “cartão vermelho” em seus estados de origem — é tecnicamente irrelevante: a legislação exige apenas domicílio eleitoral no prazo previsto e outras condições de elegibilidade, não o local de nascimento ou onde se iniciou a trajetória política.
A resistência à “forasteira” tem longa tradição nas arenas eleitorais, mas torna-se problemático quando se transforma em expediente de campanha. Primeiro porque desvia a discussão: em vez de confrontar programas ambientais, educacionais ou econômicos — pautas que, segundo Haddad, caracterizam as trajetórias de Marina e Tebet — o ataque enfatiza raízes geográficas e identitárias. Segundo porque revela hipocrisia: o próprio Tarcísio, nascido no Rio de Janeiro, transferiu o domicílio e concorreu em São Paulo em 2022; outros nomes citados no debate — de parlamentares e aspirantes que mudaram de base para disputar cargos — mostram que a mobilidade política é prática recorrente.
As reações das alvos da crítica expõem como o episódio ganhou contornos pessoais. Marina ressaltou que São Paulo sempre recebeu pessoas de diferentes partes do país e lembrou cuidados que recebeu no Hospital das Clínicas, um argumento com carga simbólica na defesa de sua conexão afetiva com o estado. Tebet, por sua vez, afirmou que paga impostos em São Paulo há dez anos e aproveitou uma referência ao time do governador para afirmar sua independência de clube, numa resposta que mistura pragmatismo e ironia.
No entanto, além do jogo de respostas prontas, há uma reflexão mais relevante para o eleitor: por que se recorre a ataques de autenticidade regional quando as pesquisas sugerem desgaste dos nomes ligados ao governo? A tática tenta transformar elegibilidade emocional em critério político. Se tiver sucesso, irá deslocar debates sobre serviços públicos, segurança, educação e meio ambiente para um confronto de pertencimento — terreno fértil para polarizações rápidas, mas de baixa densidade programática.
História e exemplos citados ao longo da discussão mostram que a fluidez geográfica não impede a construção de base eleitoral. Desde figuras que nasceram fora da capital e triunfaram em São Paulo até políticos que mudaram domicílio para concorrer, há precedentes que desmontam o argumento do “não paulistano” como desqualificação automática. A democracia tem mecanismos jurídicos para regular a elegibilidade; a política, por sua vez, deveria regular a legitimidade por meio de propostas e desempenho.
O ato de Haddad — ao chamar a crítica de agressiva e clamar pelo debate de ideias — representa, portanto, mais do que defesa partidária: é uma tentativa de recolocar o centro do embate no que realmente importa. Resta saber se o eleitorado aceitará essa mudança de pauta ou se privilegiará o teatro das identidades. Em uma eleição onde bandeiras como meio ambiente e educação são citadas como diferenciais por algumas candidaturas, reduzir a disputa a um ataque às origens é empobrecer a escolha pública.
Se a campanha paulista seguir pelo caminho das personagens e das etiquetas regionais, correrá o risco de oferecer ao eleitor muito ruído e pouca substância. E, ironicamente, o eleitor que se sente “de casa” pode ser o primeiro a perceber que a casa está sendo disputada por quem melhor monta narrativas, não por quem tem propostas de melhoria concreta para o estado.
Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2026/noticia/2026/07/10/haddad-chama-criticas-de-tarcisio-a-marina-e-tebet-de-agressao-gratuita-a-duas-mulheres.ghtml