Pesquisa em hora de turbulência: o que os questionários da Quaest tentam medir além das intenções de voto

Pesquisa da Quaest sondará impactos de episódios recentes na corrida presidencial de 2026.

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Pesquisa em hora de turbulência: o que os questionários da Quaest tentam medir além das intenções de voto

Levantamento chega no pós-vídeo de Michelle e na esteira da operação que implicou Jaques Wagner — e testa variáveis que podem redesenhar narrativas eleitorais

11/jul/2026 3 min de leitura 6 visualizações

A divulgação dos próximos números da Quaest, marcada para 15 de julho, não é um acontecimento neutro. Ao contrário: trata-se de um termômetro cuidadosamente desenhado para sondar reações a episódios que saíram do noticiário e entraram no cotidiano político — o vídeo de Michelle Bolsonaro criticando Flávio e a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que alcançou o senador Jaques Wagner.

Mais do que testar cenários de primeiro e segundo turno, o questionário da Quaest — encomendado pela Genial Investimentos e aplicado entre 10 e 13 de julho com 2.004 entrevistas (registro TSE BR-07181/2026) — investe em questões de percepção. São perguntas que procuram mapear se os eleitores viram os episódios, em que tom os julgam e se isso altera avaliações sobre governos, candidaturas e até comportamentos de grupos sociais.

No campo petista, as questões sobre Wagner são explícitas: se o eleitor já conhece as investigações, se considera que houve comportamento irregular e, sobretudo, se isso prejudica a campanha de Lula de forma significativa, moderada ou nada. A Polícia Federal atribui ao senador atuação em favor do Banco Master, com supostas vantagens indevidas, incluindo um imóvel de alto padrão em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões e repasses a empresas de familiares. A maneira como os entrevistados respondam a essas perguntas dirá, em boa medida, se a pauta de corrupção consegue atravessar o discurso de governo e recolocar a narrativa de risco ético ao PT.

No universo bolsonarista, o foco é outro: testar os efeitos do desgaste familiar e de falas polêmicas. O questionário aborda desde a repercussão dos vídeos de Michelle até a avaliação sobre o pedido de desculpas de Flávio, passando pelos comentários do assessor Paulo Figueiredo sobre o comportamento de voto das mulheres — uma frase que, por si só, provoca debate sobre gênero e representação. A pesquisa pergunta ainda se a exposição do episódio diminui a disposição do eleitor em votar em Flávio e se a família Bolsonaro trata mulheres com menos respeito. São indagações que misturam moral pública, disputa por herança política e cálculo eleitoral.

Há também espaço para temas econômicos e internacionais: medidas do governo Lula, acabamentos em regimes de trabalho (como o fim da escala 6x1), o caso Banco Master, e questões de política externa, incluindo tarifas anunciadas por Donald Trump. Esse repertório revela a intenção do levantamento de captar não apenas preferências, mas prioridades — ou seja, o que pesa mais na cabeça do eleitor diante de uma agenda híbrida entre escândalos, economia e relações exteriores.

Do ponto de vista metodológico, vale notar que o roteiro inclui uma lista de 12 pré-candidatos no primeiro turno — de nomes com baixa projeção a líderes estabelecidos — e testes de segundo turno com Lula contra Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos. A amplitude dos nomes mostra que o exercício busca compreender tanto a polarização quanto a dispersão do eleitorado.

Mas há uma advertência necessária: questionários não são neutralizadores de narrativa; ao eleger quais episódios perguntar, contribuem para sua relevância pública. Indagar sobre Michelle, Wagner ou tarifas americanas é também reafirmar que esses temas merecem lugar central na agenda eleitoral. Pesquisas, portanto, espelham percepções e, ao mesmo tempo, as amplificam.

Quando os números forem divulgados, será preciso ler com atenção não apenas as porcentagens, mas os cruzamentos — por região, gênero, renda e interesse por política — que indicarão se os acontecimentos recentes funcionaram como catalisadores de mudança ou se permanecem como ruídos em um cenário já consolidado. Até lá, a pesquisa da Quaest promete oferecer pistas sobre quem sofreu mais dano de imagem e que temas podem saltar das manchetes para a urna.


Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/07/10/quaest-nova-pesquisa-presidencial.ghtml