A leitura dos últimos levantamentos da Quaest deveria soar como um alerta cristalino para a campanha de Flávio Bolsonaro. Não por causa de um colapso — os números mostram que ele mantém um núcleo duro de apoio —, mas por uma erosão discreta e significativa em camadas fundamentais do eleitorado: a direita que não se identifica cegamente com Jair Bolsonaro e os eleitores independentes.
É legítimo que um candidato conte com uma base fiel. O problema surge quando essa base, por mais sólida que seja, não chega para garantir uma maioria. Os dados compilados pela Quaest revelam que, enquanto entre os autodenominados bolsonaristas de raiz o senador mantém adesão elevada — o apoio chega a 91% nesse grupo —, há perdas visíveis em outros segmentos que historicamente seriam vitais para ampliar o alcance eleitoral.
No cenário de segundo turno, por exemplo, o apoio do eleitorado de direita não-bolsonarista vinha caindo de forma progressiva: recortes da pesquisa mostram taxas de 90%, 88%, 82% e agora 74% entre abril e julho. A queda não é brusca, mas sinaliza tendência. Em campanha, tendência é destino se não houver correções estratégicas.
Um fator claro nessa movimentação é o episódio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a exposição da proximidade entre ele e o senador. Segundo a análise interna da campanha, essa revelação empurrou parte dos eleitores para o campo dos indecisos, não para o apoio a adversários. No primeiro turno, por exemplo, o percentual de indecisos saltou de 3% em abril para 11% em julho — um crescimento que, a rigor, traduz incerteza onde deveria haver consolidação.
Entre os independentes a mudança também é ilustrativa: Lula aparece em recuperação nesse segmento, subindo de 26% em abril para 40% em julho, enquanto a intenção de votos em Flávio recuou de 33% para 27% no mesmo período. Esses números mostram que a campanha do PL tem mais que um problema de comunicação com a própria base; há uma dificuldade real de atratividade fora do círculo bolsonarista.
A equipe de Flávio, naturalmente, lê a pesquisa com otimismo tático. Argumenta que o eleitorado deslocado foi para o grupo dos indecisos e, portanto, pode ser reconquistado. E mais: ressalta que a Quaest segue indicando Flávio como o único pré-candidato capaz de enfrentar Lula em um eventual segundo turno. É uma leitura companheira e necessária para manter a campanha unida, mas que não elimina o desafio de transformar indecisos em votos.
Há ainda outra variável política que alimenta incertezas internas: a crise envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Segundo o levantamento, esse episódio não abala a tropa de choque bolsonarista, mas contribui para a narrativa de desgaste que interessa aos eleitores que não são da base. Também pesa a carta pública do ex-presidente Jair Bolsonaro, na qual ele reafirma o filho como seu 'porta-voz' e pede que diferenças sejam deixadas de lado. Uma tentativa de costurar estabilidade, mas que não resolve a necessidade de ampliação do eleitorado.
A leitura estratégica é direta. Primeiro, é preciso evitar interpretações tautológicas do tipo “estamos bem porque a base está bem”. Uma campanha presidencial só é sustentável se transitar com segurança entre core supporters, a centro-direita pragmática e os eleitores independentes. Segundo, reputação e transparência importam mais fora do gueto petista-bolsonarista: eventos percebidos como proximidade com empresários ou mal explicados minam a confiança daqueles que decidem voto por critérios de governabilidade e integridade.
Restam opções para a campanha: ampliar a agenda para temas que toquem eleitores indecisos, trabalhar narrativas factuais que reduzam incertezas e, sobretudo, evitar novas rupturas públicas que alimentem dúvidas. A consolidação do apoio interno é necessária, mas insuficiente. Se Flávio quiser ser mais que um candidato do núcleo, terá de provar que pode conquistar quem, hoje, prefere não escolher.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2026/07/15/flavio-bolsonaro-precisa-recuperar-espaco-na-direita-nao-bolsonarista-e-entre-independentes-avaliam-aliados-apos-pesquisa-quaest.ghtml