A nova rodada da Quaest, publicada em meados de julho, confirma o cenário que vinha se delineando: Luiz Inácio Lula da Silva aparece à frente em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, com 45% a 37% das intenções de voto. A diferença de oito pontos, ainda que confortável, não significa estabilidade automática — indica, antes, um jogo com margens estreitas e variáveis que dependem tanto da mobilização das bases quanto do comportamento dos eleitores independentes.
Há dois vetores centrais nesse levantamento que merecem atenção. O primeiro é a melhora relativa da avaliação do governo. Pela primeira vez desde dezembro de 2024, a aprovação supera numericamente a desaprovação (48% a 47%). Parte desse movimento é atribuída às medidas econômicas anunciadas recentemente, como o programa "Desenrola", que parecem ter resgatado parte do carinho entre eleitores que estavam dissociados da gestão. Ainda assim, metade do eleitorado mantém Lula entre os mais rejeitados (50%) — índice que limita seu potencial de crescimento espontâneo.
O segundo vetor é a fragilidade percebida na competição de Flávio Bolsonaro. A rejeição ao senador é ainda maior (57%) e episódios domésticos, como a divulgação de vídeos envolvendo Michelle Bolsonaro, tiveram impacto real em sua base. Metade do eleitorado sequer tomou conhecimento do conteúdo, mas entre quem viu houve desgaste: uma parcela expressiva da direita não bolsonarista identificou-se com a ex-primeira-dama. Esse desgaste foi suficiente para reduzir a percepção de moderação de Flávio e, segundo a Quaest, corroer apoio fora do núcleo duro.
Dessa forma, o quadro ganha contornos de dois eleitores centrais: os fieis e os indecisos. Cerca de 65% dizem ter a decisão de voto definida, repetindo padrão de consolidação que costuma ocorrer à medida que a eleição se aproxima. Ainda assim, um terço do eleitorado admite possibilidade de mudar de opinião — fatia que concentra o poder de decidir rumos, sobretudo entre os chamados independentes. É esse grupo, que representa cerca de um terço dos eleitores, que deu a Lula uma vantagem ainda maior no segundo turno: 40% a 27%, diferença de 13 pontos.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra um terreno fértil para surpresas. Investigações recentes — como a operação envolvendo Jaques Wagner — foram pouco conhecidas pela maioria, mas entre os que souberam houve percepção negativa: 61% entendem que Wagner agiu de forma errada e quase dois em cada cinco consideram que a operação prejudica muito a campanha petista. É um lembrete: escândalos e operações policiais continuam a ter peso mesmo quando não ocupam as manchetes de todos.
No primeiro turno, Lula mantém folga sobre Flávio (40% a 28%), e os demais candidatos figuram em patamares marginalíssimos. Esse desenho indica que a disputa real continuará a se polarizar entre duas figuras com altas taxas de rejeição, o que eleva a importância de uma eleição de segunda volta definida por quem consegue mobilizar e persuadir os eleitores que hoje se dizem indecisos ou que afirmam não querer votar.
Em termos práticos, as campanhas têm tarefas claras: a de Lula precisa capitalizar a melhora de avaliação sem ignorar o impacto potencial das investigações sobre aliados; a de Flávio precisa recompor imagem além do núcleo bolsonarista e conter a corrosão provocada por conflitos pessoais que têm reverberado politicamente. Com pouco mais de dois meses até o primeiro turno e margem de erro de dois pontos percentuais, a campanha que transformar indecisos em votos e reduzir rejeição terá vantagem decisiva.
A pesquisa não entrega certezas, mas mapa: lideranças consolidadas, bases resistentes, eleitores independentes com poder de decisão e riscos reputacionais capazes de redirecionar trajetórias. É nesse terreno volátil que as próximas semanas serão jogadas.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/07/15/quaest-segundo-turno.ghtml