A chegada maciça de ferramentas de inteligência artificial ao cotidiano das campanhas eleitorais expõe um dilema simples: como aproveitar ganhos operacionais sem transformar a voz pública em um repertório de cópias digitais? As pré-campanhas dos principais nomes à Presidência mostram, nas últimas semanas, que não existe consenso. Há quem veja a tecnologia como um atalho necessário; outros a encaram como ameaça à credibilidade — e ao contato humano que, em teoria, deveria ser o centro da política.
Argumentos pragmáticos ganham espaço nas equipes que defendem o uso mais amplo da IA: produção mais barata, agilidade para testar narrativas e alcance facilitado para formatos audiovisuais. Romeu Zema, do Novo, é citado entre os que já usam a ferramenta para peças de baixo custo — uma série animada criticando privilégios é o exemplo mencionado nas pré-campanhas. Para aliados, trata‑se de um recurso acessível que nivela custos e permite experimentação criativa.
No outro extremo, estão campanhas que preferem preservar a presença física do candidato como cartão‑postal da sinceridade. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe deixam claro que a IA será um suporte, nunca um substituto: segundo Éden Valadares, secretário nacional de Comunicação do PT, "Nas redes ou na TV, será sempre o Lula de verdade, falando de verdade". O próprio presidente já manifestou, em evento na Bahia, reservas sobre versões artificiais capazes de multiplicar presenças em comícios simultâneos — um cenário que, para ele, dilui a exigência de olhar nos olhos do eleitor.
Esse discurso do PT articula duas frentes: uma defesa ética do contato direto e uma crítica tática ao adversário. O partido publicou conteúdo sustentando que o problema não é a tecnologia em si, mas o uso dela para manipular ou fabricar situações. A alusão explícita é ao grupo bolsonarista, cuja pré‑campanha de Flávio Bolsonaro já incorporou materiais gerados por IA. Os vídeos foram identificados como produzidos por inteligência artificial em conformidade com a legislação eleitoral; um exemplo divulgado mostrou o pré‑candidato em uma cena de piloto de caça.
Integrantes da campanha de Flávio defendem a estratégia de aproveitar o que a lei permite. Segundo aliados, os conteúdos de IA têm gerado engajamento, ainda que não necessariamente desempenho superior a outros formatos; o próprio pré‑candidato combina esse material com vídeos tradicionais de agenda pública, sem processamento artificial.
Outras candidaturas adotam uma posição intermediária: Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) planejam privilegiar a imagem em carne e osso. Um estrategista ligado a Caiado resumiu a preferência pela moderação: "Quanto menos, melhor". A coordenadora da pré‑campanha de Renan, vereadora Amanda Vettorazzo, diz que a IA será usada no mínimo necessário — principalmente para ilustrar projetos, como propostas de reurbanização.
No plano institucional, o Tribunal Superior Eleitoral tentou regular o terreno para evitar abusos: a legislação exige que qualquer propaganda eleitoral criada ou alterada por IA traga aviso claro e visível, para reduzir o risco de engano. Além disso, há limitações temporais rigorosas: é proibido publicar conteúdos que usem a voz ou imagem de candidatos gerados por IA nas 72 horas que antecedem a eleição e nas 24 horas seguintes à votação; plataformas devem apagar materiais que violem essas regras.
O problema, porém, não se resolve apenas com normas. A tendência é que campanhas com maior capacidade técnica e orçamental criem materiais cada vez mais polidos — e que a diferença entre o real e o artificial vá se tornando menos óbvia para o cidadão médio. A consequência política é perigosa: num país onde a confiança nas instituições e nos atores políticos já oscila, a adoção indiscriminada de IA pode aprofundar a sensação de distanciamento entre eleitores e representantes.
A escolha de usar ou restringir a IA revela, em última instância, uma aposta sobre a natureza da política: será ela espetáculo escalável — multiplicável sem perda de qualidade — ou relação presencial e verificável, ainda que limitada por utensílios logísticos? As respostas dadas nas próximas semanas por campanhas e pelo próprio eleitorado vão desenhar não só as estratégias, mas o contorno democrático do pleito.
Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2026/noticia/2026/07/10/pre-campanhas-de-presidenciaveis-se-dividem-sobre-uso-de-inteligencia-artificial-nas-eleicoes.ghtml