A opção da federação formada por União Brasil e Progressistas por não formalizar um apoio nacional à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro é, antes de tudo, um gesto de prudência estratégica. Não se trata apenas de um frio “não” ao nome do PL: é uma série de sinais sobre prioridades partidárias, sensibilidades regionais e a maneira como alianças eleitorais são costuradas na prática, e não nos ensaios de gabinete.
A federação — que implica atuação conjunta das siglas por pelo menos quatro anos — preferiu não embarcar em uma colagem que poderia gerar custos imediatos em áreas onde o presidente Lula ainda mantém forte base eleitoral. Lideranças estaduais, especialmente do Nordeste, têm sido enfáticas: um apoio nacional a um candidato com o perfil de Flávio poderia contaminar candidaturas locais e deputados que dependem do eleitorado lulista para se manterem competitivos.
Há motivos internos também. Nos últimos meses, as relações entre o senador e figuras-chave da federação se deterioraram. O episódio envolvendo o presidente do Progressistas, Ciro Nogueira — alvo de medidas da Polícia Federal no curso da investigação que envolve o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro, em maio — deixou a desejar no campo das solidariedades públicas. A cúpula do PP esperava uma manifestação de apoio por parte de Flávio que não se concretizou, aprofundando a fissura. Antes desse distanciamento, inclusive, houve avaliação sobre a possibilidade de Ciro integrar uma chapa como vice de Flávio; ideias que hoje soam como propostas de outro tempo.
O incômodo ganhou nova intensidade após a prisão do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, pré-candidato ao Senado pelo Rio e aliado bolsonarista. A descoberta de um fuzil no porta-malas de seu veículo, durante a 6ª fase da Operação Unha e Carne, e a falta de provas apresentadas para justificar a presença da arma agravaram a percepção de risco reputacional. Os líderes do bloco esperavam algum posicionamento público de Flávio sobre o episódio — não o tiveram — e isso pesou nas avaliações internas.
O resultado desse acúmulo: neutralidade formal no plano nacional, com permissividade para decisões estaduais. Essa fórmula não é neutra politicamente. Ao liberar diretórios locais para escolher apoiamentos, a federação evita um custo centralizado, mas cria um mosaico de alianças que pode beneficiar candidaturas regionais específicas — ou, ao contrário, fragmentar estrategicamente a sua própria base.
Um exemplo concreto está em São Paulo. Lá, o Progressistas decidiu apoiar Flávio, numa leitura instrumental: o voto de confiança ao bolsonarista serviria para impulsionar a candidatura ao Senado de Guilherme Derrite, secretário estadual da Segurança Pública pelo PP. Para dirigentes do partido, enquanto o PL paulista terá André do Prado com o apoio do governador Tarcísio de Freitas, cabe a Flávio concentrar energia em ajudar Derrite. É política de balcão eleitoral, e funciona segundo lógica de soma de esforços locais — nem sempre coincidente com mandamentos nacionais.
O tabuleiro senatorial de 2026 adiciona outra camada de complexidade. Estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado; cada estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores. Em São Paulo, pesquisas recentes mostram cenário competitivo: Simone Tebet e Marina Silva tecnicamente empatadas nas primeiras colocações, com 18% e 16% das intenções, seguida por Ricardo Salles (13%), André do Prado (11%) e Guilherme Derrite (10%). Números como esses ajudam a explicar a cautela da federação: um apoio mal calculado pode fortalecer adversários locais ou, ao contrário, ser decisivo para um projeto paulista específico.
No fim das contas, a decisão da União Progressista espelha uma realidade recorrente: partidos médios tentam preservar palanques regionais e evitar arriscar carteiras eleitorais locais por afinidades nacionais que, na prática, rendem mais ruído do que votos. Para Flávio Bolsonaro, o recado é claro — e ambíguo: há espaço para apoios pontuais, mas falta uma estrutura federativa disposta a assumir o peso de uma aliança em nível nacional. Em véspera de campanha, isso pode significar mais desafios logísticos e menos coordenação estratégica — um problema que candidatos presidenciais decentes sabem custar caro.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/07/10/pp-uniao-brasil-flavio-bolsonaro.ghtml