A última pesquisa Quaest traz um quadro que merece leitura atenta: a aprovação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva aparece numericamente à frente da desaprovação pela primeira vez desde dezembro de 2024, mas o cenário continua frágil e fortemente dependente da percepção econômica da população. Entre os entrevistados, 48% dizem aprovar a gestão, contra 47% que desaprovam — diferença dentro da margem de erro de dois pontos, o que transforma a vantagem em algo mais simbólico do que consolidado.
O ponto central da análise da própria Quaest é explícito: mudança de percepção sobre a economia. Um número relevante de brasileiros passou a entender que a situação econômica do país deixou de deteriorar-se. Essa sensação, ainda que relativa, serve como combustível para reverter a maré de rejeição que dominou o ano passado. Felipe Nunes, diretor da Quaest, destaca que o saldo positivo de aprovação só volta a aparecer agora, mostrando que ganhos de imagem podem ser rápidos quando a agenda econômica é percebida como favorável.
Mas é preciso separar efeitos pontuais de transformações estruturais. A pesquisa expõe claramente que programas de alívio financeiro têm impacto distinto sobre a opinião pública. O Desenrola 2.0, por exemplo, surge como medida com maior capacidade de reduzir a desaprovação do que a proposta de aumentar a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais. Dados da própria consulta indicam que 39 milhões de brasileiros recorreram ao Desenrola, e 66% dos entrevistados conhecem o programa; entre os usuários, 35% afirmam ter observado um aumento significativo na renda após aderir à medida. São dados que explicam por que iniciativas focalizadas em liquidez imediata tendem a repercutir mais fortemente na popularidade do governo.
O caráter eleitoral do ajuste fiscal também chama atenção. Diferentes economistas estimam que houve uma expansão de gastos do Executivo nesta janela eleitoral que se aproxima de R$ 200 bilhões. São recursos que, ao aliviar famílias em curto prazo, ajudam a ajustar indicadores de avaliação governamental — mas levantam interrogações sobre sustentabilidade e efeitos no quadro macro no médio prazo. O eleitor percebe melhora no bolso hoje; a avaliação sobre riscos fiscais e consequências futuras, porém, só costuma aparecer mais adiante.
Outra peça do quebra-cabeça político é o debate sobre o regime de trabalho: a proposta de acabar com a escala 6x1 tem alto índice de conhecimento (75%) e ampla aprovação (69%). Metade dos que apoiam a mudança diz que, se ela vigorar, conseguirá passar mais tempo com a família. Esse é um exemplo de como pautas de impacto direto na rotina e no bem-estar cotidiano podem mobilizar apoio mais robusto do que medidas tributárias de maior alcance técnico.
A leitura conjunta dos resultados — aprovação e desaprovação empatadas tecnicamente, aumento da avaliação econômica, influência de programas específicos e gasto eleitoral elevado — aponta para um ambiente político sensível a sinais imediatos. Em outras palavras: a popularidade do governo está ancorada na percepção de melhoria econômica e em políticas que tocam o bolso do eleitor.
Resta a dúvida sobre a durabilidade desse efeito. Se a recuperação da aprovação depende sobretudo de medidas pontuais e do desembolso fiscal em ano eleitoral, o teste virá quando o eleitor começar a avaliar consistência de renda e empregos no médio prazo. Até lá, o governo conquista fôlego — mas caminha sobre terreno estreito, onde qualquer notícia ruim sobre inflação, emprego ou contas públicas pode rapidamente reverter ganhos recentes.
A pesquisa Quaest foi encomendada pela Genial Investimentos, ouviu 2.004 eleitores entre 10 e 13 de julho e tem margem de erro de dois pontos percentuais com nível de confiança de 95%. O registro no TSE é BR-07181/2026. Esses detalhes metodológicos reforçam que as variações observadas são pequenas, ainda que politicamente relevantes: em democracia, percepções curtas podem definir eleições e políticas públicas.
Fonte: https://g1.globo.com/economia/blog/ana-flor/post/2026/07/15/economia-impulsiona-melhora-na-avaliacao-de-lula-aponta-quaest.ghtml