O recuo do governo em relação ao início das operações da linha de crédito do programa Move Brasil para mototaxistas, motofretistas e entregadores de aplicativos — adiado de 13 para 27 de julho — foi justificado pela necessidade de finalizar testes tecnológicos e operacionais entre os sistemas envolvidos. Em si, a postergação é compreensível: lançar um produto financeiro com falhas em integrações poderia gerar frustração e até prejuízos a trabalhadores já vulneráveis.
No entanto, a notícia revela problemas estruturais que não se resolvem com ajustes de calendário. A linha prevê financiamento, sem entrada, de veículos zero-quilômetro — de bicicletas elétricas a motos flex — com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO), prazo de até 48 meses e carência de dois meses. Apesar das condições aparentemente favoráveis, a efetiva entrega do bem depende de duas etapas distintas: a confirmação de participação do trabalhador no programa e, crucialmente, a aprovação pela análise de crédito das instituições financeiras habilitadas — entre elas Caixa e Banco do Brasil.
E aí mora a contradição. O Estado facilita o acesso ao crédito e assume parte do risco via FGO, mas transfere aos bancos a decisão final sobre quem será financiado. Para motoristas e entregadores que trabalham por aplicativo e, com frequência, vivem da informalidade, o histórico de renda irregular e a volatilidade da atividade põem em xeque a capacidade de obter aprovação. Sem medidas complementares — como linhas de avaliação de risco específicas para trabalhadores por conta própria, histórico de movimentação por aplicativo como comprovante de renda ou mecanismos simplificados de renegociação —, a promessa de inclusão corre o risco de se transformar em retórica.
Além desse aspecto financeiro, há outras lacunas. A escolha por veículos zero-quilômetro atende a um objetivo legítimo de renovar a frota e melhorar segurança e eficiência. Contudo, a logística da oferta merece atenção: como será feita a seleção dos modelos elegíveis em diferentes regiões? Haverá oficinas e assistência técnica pós-venda adequadas para motos elétricas em cidades do interior? Como garantir que o acesso não fique restrito a quem já tem alguma conexão administrativa ou digital com o Estado e com os bancos? Estas perguntas não foram respondidas na nota que comunicou o adiamento.
No campo político, o programa se insere na narrativa do governo sobre visibilidade aos trabalhadores de plataformas. O presidente afirmou que motoristas de aplicativo estão deixando a “invisibilidade”, uma afirmação que corresponde a uma intenção política relevante: reconhecer e regularizar um contingente significativo da força de trabalho. Mas reconhecer não é o mesmo que transformar as condições de trabalho. Sem garantias de manutenção do emprego, de proteção social efetiva ou de políticas de segurança — assunto que também tem sido demandado por motociclistas, que cobram ações educativas para passageiros —, a formalização por meio de crédito pode apenas maquiar a precariedade.
O adiamento, portanto, deveria ser aproveitado para além de testes técnicos. É hora de o governo e os bancos afinarem protocolos de avaliação de crédito que levem em conta a natureza atípica da renda desses trabalhadores, ampliarem canais de atendimento presencial e digital para populações com baixa formalidade bancária e esclarecerem critérios de elegibilidade e custos reais do financiamento aos beneficiários.
Se a meta é tirar da invisibilidade milhões de trabalhadores, é necessário ir além do anúncio: operacionalizar com clareza, garantir que o acesso não seja filtrado por um critério bancário padrão e articular políticas complementares de segurança e assistência. Somente assim o programa poderá cumprir uma promessa que, no papel, soa bem — e, na prática, pode fazer diferença — mas que exige muito mais que um calendário acertado de testes tecnológicos.
Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/07/10/linha-de-credito-do-move-brasil-para-entregadores-e-motoristas-de-app-e-adiada-para-27-de-julho.ghtml