A usina de descontos: o que a primeira fase da Operação Sem Desconto revela sobre a captura do INSS

Alvos indiciados na primeira fase da Operação Sem Desconto.

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A usina de descontos: o que a primeira fase da Operação Sem Desconto revela sobre a captura do INSS

Relatório da Polícia Federal aponta esquema que desviou recursos de aposentados e envolveu altos nomes do instituto, lobistas e dirigentes da Conafer

15/jul/2026 3 min de leitura 5 visualizações

A conclusão do primeiro inquérito da Operação Sem Desconto, transmitida pela Polícia Federal ao ministro relator do caso no Supremo, André Mendonça, confirma aquilo que muitos temiam: um arranjo sistêmico capaz de transformar o débito em instrumento de enriquecimento privado às custas de beneficiários vulneráveis. São 48 indiciados, entre eles ex‑dirigentes do INSS, políticos, operadores financeiros e o comando da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer). A gravidade das alegações exige mais do que escândalo — pede investigação célere, ampla e que se traduza em responsabilização efetiva se confirmadas as provas.

As peças centrais deste quebra‑cabeça, segundo a PF, mostram um padrão de captura administrativa e de uso de estruturas formais para lavar recursos. O ex‑presidente do INSS Alessandro Stefanutto é apontado como beneficiário de repasses mensais que teriam chegado a R$ 250 mil, em troca de omissão fiscalizadora sobre um Acordo de Cooperação Técnica com a Conafer. O relatório também descreve uso de contas de terceiros para ocultar os fluxos — prática típica de operações de lavagem.

No mesmo compasso, o ex‑procurador‑geral do INSS e o ex‑diretor de benefícios aparecem como peças que, desde dentro, teriam oferecido blindagem jurídica e operacional ao esquema. À PF, atribui‑se a Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho participação em atos de ofício que liberaram recursos; a investigação registra recebimento de valores que teriam superado R$ 6,5 milhões e a entrega de um veículo de luxo. Já André Fidelis, nomeado por pressão política para o comando de benefícios, é descrito como facilitador cuja omissão foi recompensada com, pelo menos, R$ 3,4 milhões e vantagens patrimoniais.

No epicentro da operação financeira aparece a Conafer e seu presidente, Carlos Roberto Ferreira Lopes, a quem a PF atribui o papel de líder da organização. Segundo o relatório, a confederação teria promovido descontos indevidos na folha de pagamentos de aposentados, convertendo em pelo menos R$ 708 milhões de ganhos ilícitos entre 2020 e 2025, além de outros R$ 30 milhões relacionados a fraudes complementares. A sofisticação da engenharia criminosa — com empresas de fachada, transferências complexas, compras de imóveis e até aeronaves — compõe um roteiro já conhecido em outros casos de corrupção sofisticada, mas que, aqui, atinge uma camada sensível da população: pensionistas e aposentados.

O papel dos operadores financeiros também é destacado. Cícero Marcelino de Souza Santos, apontado como caixa da Conafer, teria articulado o escoamento de centenas de milhões por meio de empresas inativas em Presidente Prudente, cheques e entregas em espécie. Há menção ainda a práticas de lavagem via pecuária no Mato Grosso e à utilização de rebanhos e latifúndios para dar aparência lícita a recursos suspeitos. Essas táticas ilustram como crimes financeiros se entrelaçam a atividades rurais e mercantis para ocultar trilhas de dinheiro.

A investigação começou na Controladoria‑Geral da União em 2023 e migrou para a Polícia Federal em 2024, quando elementos indicaram a suspeita de crime. A PF estima descontos indevidos que podem atingir R$ 6,3 bilhões — número que, se confirmado, traduz prejuízo monumental a quem vive de renda fixa e de benefícios públicos.

Há, naturalmente, a defesa dos acusados: pedidos de revogação de prisão preventiva, negatórias e o lembrete de que indiciamento policial não equivale a condenação. Mas esse princípio processual não substitui a necessidade de transparência sobre como decisões institucionais foram tomadas e quem lucrava com a fragilidade do sistema.

O próximo capítulo é da Procuradoria‑Geral da República, que avaliará se oferece denúncia, pede diligências adicionais ou arquiva partes do inquérito. O que a sociedade espera — e deve cobrar — é que o processo não se perca em tecnicalidades ou em litígios protelatórios e que, ao final, haja responsabilização proporcional ao dano econômico e moral infligido a milhares de beneficiários que jamais autorizaram descontos em seus proventos. Se comprovadas, as acusações retratam não um caso isolado, mas um problema estrutural: a combinação de atores públicos e privados que captura políticas públicas para interesses privados, corroendo a confiança pública e desviando recursos de quem mais precisa.


Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/15/inss-veja-o-que-a-pf-diz-sobre-os-indiciados-na-primeira-investigacao-sobre-descontos-indevidos.ghtml