A aritmética que muda deputados: quando a retotalização redesenha bancadas e provoca efeitos políticos

Nivaldo Albuquerque (Republicanos-AL) e Priscila Costa (PL-CE)

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A aritmética que muda deputados: quando a retotalização redesenha bancadas e provoca efeitos políticos

Nivaldo Albuquerque e Priscila Costa tomam posse após decisões que recalcularam a distribuição de vagas; o episódio expõe fragilidades e consequências do sistema proporcional

11/jul/2026 3 min de leitura 6 visualizações

Nesta quinta-feira (9), a Câmara oficializou a entrada de Nivaldo Albuquerque (Republicanos-AL) e Priscila Costa (PL-CE) para ocupar vagas abertas com a perda dos mandatos de Paulão (PT-AL) e Dayany Bittencourt (União-CE). À primeira vista, tratou‑se de uma troca de nomes. Por trás dela, contudo, está um mecanismo técnico capaz de alterar, sem nova votação, a correlação de forças construída nas urnas: a retotalização de votos.

A retotalização é um recálculo matemático aplicado quando a Justiça Eleitoral retira da contagem votos que passaram a ser considerados inválidos por decisão judicial. Não é recontagem de urna nem segunda eleição. É, antes, a atualização do quociente eleitoral — fórmula que divide votos válidos pelo número de cadeiras — e, consequentemente, da distribuição de vagas entre partidos e candidatos. O resultado desse procedimento é simples e contundente: a composição da bancada pode mudar meses ou anos depois do pleito.

No caso de Alagoas, a exclusão de 24,7 mil votos atribuídos a João Catunda (PP) motivou a revisão do quociente e precipitou a queda do mandato do petista Paulão. A anulação desses sufrágios decorreu de decisão da Justiça Eleitoral estadual que entendeu haver captação ilícita relacionada a financiamento de material de campanha com recursos do Sindicato de Saúde de Maceió. Em Brasília, o Tribunal Superior Eleitoral também determinou a perda da vaga de Dayany Bittencourt após anular votos do suplente Heitor Freire (União Brasil-CE), por irregularidades envolvendo arrecadação e despesas com recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.

As consequências imediatas são óbvias: Nivaldo e Priscila assumem mandatos federais. Nivaldo, 38 anos, pecuarista de Maceió, já conhece a rotina parlamentar, tendo entrado como suplente em 2016 e exercido mandatos entre 2016 e 2019. Priscila, 41 anos, jornalista de Fortaleza, chega à Câmara após trajetória municipal — três mandatos como vereadora — e depois de atuar como presidente do PL Mulher no Ceará. Essas trajetórias mostram que, embora a mudança tenha origem técnica, o impacto se traduz em pessoas com histórias e agendas próprias.

Mas o efeito político extrapola biografias. A substituição de um parlamentar por outro altera a composição das bancadas, redesenha articulações internas e muda negociação por postos, comissões e pautas. Parte relevante dessa dinâmica vem da forma como partidos e atores recorrem ao Judiciário para disputar resultados. Quando decisões sobre gastos de campanha, financiamentos ou condutas individuais são reconhecidas como irregularidades e votos são anulados, o rebatimento organizacional pode ser maior do que a própria sanção ao candidato que cometeu a infração.

Há, ainda, a dimensão local e estratégica revelada pelo caso de Priscila. Sua entrada ocorre num contexto de racha no PL cearense, envolvendo a disputa pela vaga ao Senado em 2026, apoio público da ex‑primeira‑dama Michelle Bolsonaro em junho de 2025 e a articulação do diretório estadual para lançar outro nome. Essa disputa interna — com fios que alcançam a esfera federal e personalidades de peso — mostra como decisões judiciais sobre contas e candidaturas podem alimentar crises partidárias e recalibrar ambições eleitorais.

A retotalização, portanto, impõe um dilema democrático. De um lado, ela corrige composição legislativa quando há irregularidades comprovadas, defendendo a integridade do processo eleitoral. De outro, promove alterações na representação sem que os eleitores tenham oportunidade de se manifestar novamente sobre a nova configuração. Esse balanço exige transparência das decisões, eficiência processual e uma reflexão sobre prazos: quanto tempo é aceitável para que uma eleição seja considerada definitivamente consolidada?

Ao transformar cálculos em política, o episódio revela que a matemática das urnas é também instrumento de poder. Haverá vencedores e perdedores, como sempre houve. O que muda é que agora as retotalizações — atos técnicos e jurídicos — moldam diretamente quem ocupa as cadeiras e como essas cadeiras influenciam as prioridades do Congresso. Para além de nomes, o que está em jogo é a estabilidade das regras do jogo democrático e a percepção pública de que o resultado apresentado nas urnas pode ser substancialmente revisto por decisões posteriores.

A política, portanto, precisa olhar com atenção para essas engrenagens: corrigir distorções é necessário, mas preservar a previsibilidade e a confiança nas escolhas populares também deveria ser prioridade.


Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/10/saiba-quem-sao-os-deputados-que-assumem-vagas-na-camara-com-as-perdas-dos-mandatos-de-paulao-e-dayany-bittencourt.ghtml