Na manhã desta terça-feira (4), um telefonema de cerca de uma hora entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Vladimir Putin reativou, em tom de pragmatismo, a agenda bilateral entre Brasil e Rússia. A iniciativa partiu do chefe do Executivo brasileiro e tratou de dois eixos que têm marcado a política externa de Brasília: expansão do comércio e tentativa de influir, ainda que modestamente, em crises de grande impacto geopolítico.
Do ponto de vista econômico, o diálogo foi direto. Lula colocou ênfase em insumos que interessam ao agronegócio e à indústria nacionais, especialmente diesel e fertilizantes, ao mesmo tempo em que cobrou maior paridade no fluxo comercial, com mais espaço para exportações brasileiras ao mercado russo. Esse tipo de negociação revela a lógica pragmática que orienta Brasília: aproveitar oportunidades de fornecimento e reduzir déficits setoriais, sem, necessariamente, transformar o ajuste em compromisso político irreversível.
Na esfera política, o telefonema ocorreu num contexto sensível. O governo brasileiro mantém postura favorável a uma solução negociada para o conflito na Ucrânia e tem reclamado, publicamente, da incapacidade do Conselho de Segurança da ONU em apresentar respostas eficazes. Segundo a Presidência, Lula lamentou as perdas humanas e reforçou a necessidade de diálogo entre as potências. Do lado russo, a devolutiva foi de agradecimento pelos esforços brasileiros em buscar caminhos políticos e diplomáticos.
Há, contudo, uma leitura que exige cautela. A retomada de laços mais estreitos com Moscou, ampliando cooperação em áreas como energia, ciência, tecnologia e setor naval, pode ser vista por aliados ocidentais como um movimento de neutralidade ativa — isto é, uma neutralidade com iniciativas que, na prática, reforçam capacidades de um ator em conflito. A menção explícita a temas de defesa e a estreitamento de intercâmbios tecnológicos costuma despertar atenção em capitais que acompanham com desconfiança qualquer aproximação entre democracias ocidentais e a Rússia.
Outro nó a ser desatado é a eficiência real dessa diplomacia de alto contato. Zelensky, segundo interlocutores, pediu a Lula que falasse com Putin, o que colocou o presidente brasileiro numa posição de intermediador informal. A pergunta é óbvia: até que ponto uma conversa telefônica de uma hora entre dois mandatários — sem anúncios de mediações concretas — tem capacidade de alterar o curso de um conflito tão verticalizado por interesses estratégicos e por decisões militares?
A movimentação também inclui diplomacia técnica. O embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência, reuniu-se com Nikolay Patrushev, assessor de Putin, para fazer um balanço da visita da delegação russa ao Brasil e aprofundar pontos de cooperação nas áreas naval, espacial, energética, de defesa e ciência e tecnologia. Esse tipo de interlocução indica que Brasília quer transformar intenções em projetos práticos, o que pode render ganhos econômicos, mas também custos reputacionais.
É importante lembrar que este não é o primeiro contato significativo entre Lula e Putin neste ciclo político. Em janeiro, houve conversa sobre a crise na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro por autoridades americanas, quando ambos defenderam a soberania venezuelana e alinharam coordenadas de atuação via ONU e BRICS. A continuidade desses diálogos mostra uma estratégia consistente de Brasília: atuar em palcos multilaterais, fortalecer blocos de países do Sul e, ao mesmo tempo, preservar canais com todas as potências.
O desafio para o governo é administrar o tightrope walk entre aproveitar oportunidades comerciais e não perder capital político junto a parceiros históricos. Há espaço para uma diplomacia autônoma e pragmática, mas ela exigirá conteúdo substantivo — mediações efetivas, projetos de cooperação concretos e transparência sobre limites e ambições. Sem isso, conversas de alto nível correm o risco de virar gestos simbólicos apreciados nos comunicados oficiais, mas de impacto limitado na realidade dos conflitos e das economias em jogo.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/em-telefonema-lula-e-putin-falam-em-aumentar-comercio-bilateral-e-discutem-guerra-da-ucrania.ghtml