O diagnóstico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta terça-feira, confirma aquilo que muitos já desconfiavam: não existe um país único quando se trata de pagamento e presença policial. As médias salariais e os efetivos apontam para municípios e estados com condições de trabalho tão distintas que colocam em xeque a equidade do próprio princípio de segurança pública como serviço universal.
No campo das Polícias Militares, a média nacional bruta é de R$ 10.329,61, mas as diferenças entre as unidades federativas são abruptas. Goiás aparece no topo com R$ 15.685,47, seguido pelo Distrito Federal e Tocantins. No extremo oposto, estão Piauí (R$ 6.648,84), Paraíba (R$ 7.832,83) e Maranhão (R$ 8.410,46). Entre os civis, a média brasileira bruta sobe para R$ 15.512,52 — e o contraste é ainda maior: o Amazonas lidera com R$ 26.824,02, enquanto Minas Gerais registra a média mais baixa, R$ 12.195,03.
É importante sublinhar: esses números são valores médios brutos fornecidos pelos estados, sem descontar impostos e contribuições. Além disso, nem todas as secretarias prestaram todas as informações solicitadas, o que limita a precisão em alguns pontos — um dado que, por si só, já diz muito sobre governança e transparência.
Mais que estética estatística, esses números têm consequências práticas. Polícias civis e militares convivem com déficits estruturais importantes: o efetivo de PMs está 34% menor do que o previsto pelas leis estaduais, enquanto as polícias civis têm 45% a menos do que o ideal estabelecido em norma. Em termos absolutos, há cerca de 413 mil PMs contra uma estimativa ideal próxima de 620 mil; nas polícias civis, são 97 mil profissionais frente a um necessário de 175 mil. Essa escassez não é neutra: mais vulnerabilidade territorial, menor capacidade investigativa e sobrecarga nas carreiras permanecem como efeitos previsíveis.
Ao mesmo tempo, o relatório mostra expansão de algumas forças: as guardas municipais já superam 100 mil agentes — um crescimento de 13% entre guardas e responsável por puxar uma alta geral de 3% no contingente de agentes de segurança. A presença crescente das GCMs levanta debates legítimos sobre atribuições, integração e fiscalização, sobretudo quando 44 municípios possuem efetivos de guardas acima do que a lei permite.
Outros números do estudo ampliam a preocupação. O Brasil tem, em média, um policial militar a cada 21 km²; no Amazonas esse índice sobe para um profissional a cada 180 km². Mulheres ocupam apenas 7% dos postos de comando nas PMs. O contingente de bombeiros é escasso: 0,3 por mil habitantes em média, com desigualdades dramáticas entre DF e Amazonas. Entre 2023 e 2025, caiu a quantidade de policiais penais em 3% enquanto o total de presos subiu 6% — um sinal claro de desalinhamento entre política prisional e capacidade operacional.
Há ainda a dimensão fiscal: os estados destinarão cerca de R$ 230 bilhões anuais com remunerações na segurança pública — o equivalente a 1,8% do PIB projetado para 2025. Trata-se de uma fatia considerável que traduz prioridades orçamentárias. A pergunta que fica é: os recursos estão sendo alocados de maneira a reduzir a criminalidade e fortalecer instituições, ou apenas a sustentar estruturas desiguais e mestres-sala de políticas localistas?
A leitura política é óbvia. Escolhas presidenciais, estaduais e municipais determinam onde se aumenta efetivo, onde se valoriza carreiras e onde se deixa o espaço público vulnerável. Reformas, concursos, investimentos em inteligência e integração entre esferas são mais urgentes justamente em locais onde salários são baixos e faltam profissionais. Não há solução técnica que se sustente sem decisão política: ou se prioriza uma política de segurança pública integrada e equânime, ou o país continuará operando em consolidação de bolsões de proteção ao lado de áreas cronicamente desassistidas.
O Raio-X do Fórum é um mapa incômodo: desnuda desigualdades que cobram preço em segurança e cidadania. Cabe aos governos explicar as discrepâncias e apresentar planos claros para reduzi-las — e à sociedade exigir que a caneta que assina os cheques sirva também para ampliar presença, investigação e prevenção, não apenas para manter aparências.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/ranking-de-salarios-das-policias-civil-e-militar-segundo-forum-de-seguranca.ghtml