SUS amplia teleatendimento para dependência de apostas — resposta correta ou remendo emergencial?

Ampliação do teleatendimento do SUS para pessoas com problemas relacionados a apostas

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SUS amplia teleatendimento para dependência de apostas — resposta correta ou remendo emergencial?

Do acesso digital às contradições regulatórias: o crescimento das apostas exige mais do que consultas por videoconsulta

06/ago/2026 3 min de leitura 1 visualizações

O anúncio do Ministério da Saúde sobre a expansão do teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a apostas chega em um momento político e social delicado. Oficializada em uma terça-feira (4), a medida amplia um serviço que já vinha em teste desde março, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, e que inicialmente dispunha de 600 atendimentos remotos por mês. Hoje, segundo a pasta, a capacidade salta para até 100 mil teleatendimentos mensais — uma ampliação numérica que suscita mais perguntas que respostas.

Antes de qualquer análise, é preciso reconhecer o mérito: oferecer acompanhamento psicológico e de enfermagem a quem desenvolve um vínculo problemático com jogos é imprescindível. O formato confidencial, com orientações também destinadas a familiares, e o uso de videochamadas de aproximadamente 50 minutos, semanalmente, configuram uma proposta alinhada às práticas contemporâneas de cuidado. O ciclo inicial de até dez sessões, com reavaliação posterior e possibilidade de alta, continuidade ou encaminhamento presencial, demonstra preocupação em evitar intervenções pontuais e fragmentadas.

Mas a ampliação anunciada — do patamar simbólico de centenas para dezenas de milhares — demanda escrutínio. Serviços de saúde mental não escalam apenas por decreto: dependem de profissionais capacitados, supervisão clínica, protocolos claros e monitoramento de qualidade. A notícia registra a participação de psicólogos e enfermeiros, mas não detalha como será assegurada a oferta contínua desses profissionais nem como se dará o controle de qualidade diante de uma demanda tão expressiva.

Há ainda uma barreira técnica e social que não pode ser ignorada. O acesso ocorre pelo aplicativo Meu SUS Digital, redirecionando à plataforma AgSUS, e exige conta gov.br, preenchimento de um autoteste, aceite de termo e formulário inicial. Esse fluxo é eficiente para usuários conectados e familiarizados com serviços digitais, mas exclui parcela significativa da população que enfrenta limitações digitais, baixa alfabetização em saúde ou dificuldades de privacidade em seus lares. Em outras palavras: a solução digital é necessária, porém insuficiente como única via de acolhimento.

O pano de fundo regulatório é outro fator que deve permanecer no centro do debate. Em dezembro de 2023, o presidente sancionou a lei que regulamenta o mercado de apostas esportivas online — uma mudança estrutural que abre espaço para expansão do setor e arrecadação tributária. Mais recentemente, o Ministério da Fazenda passou a exigir advertências nas publicidades de “bets”, análogas às de cigarro e álcool. Essas decisões caminham em paralelo com a ampliação do cuidado oferecido pelo SUS. Em termos práticos, trata-se de um equilíbrio complicado: por um lado, o Estado regula e tributa o mercado; por outro, precisa responder ao aumento de danos potenciais associados à própria expansão dessas atividades.

A resposta do SUS, portanto, precisa ser parte de uma política pública articulada. Tratamento não resolve prevenção. É necessário combinar a oferta clínica com estratégias educativas, restrições mais eficazes sobre publicidade dirigida a públicos vulneráveis, e mecanismos de responsabilização das plataformas que lucram com o jogo. Além disso, é fundamental que o Ministério da Saúde publique indicadores de desempenho do serviço ampliado — número de profissionais envolvidos, taxa de adesão, resultados clínicos e fluxos de encaminhamento a atenção presencial — para que a redução de danos possa ser avaliada de forma transparente.

Por fim, cabe observar a inclusão das famílias no acolhimento digital. Esse aspecto é positivo e aponta para uma visão ampliada de cuidado, já que o impacto das apostas costuma ir além do apostador. Ainda assim, sem políticas públicas robustas e integração entre saúde, educação e regulação do mercado, o teleatendimento pode funcionar mais como um paliativo do que como uma estratégia estrutural para enfrentar um problema em ascensão.

A ampliação anunciada é um passo necessário, mas insuficiente. Se o Estado pretende mitigar os efeitos sociais e de saúde das apostas, é preciso acompanhar a iniciativa com investimentos em força de trabalho, ações de prevenção, monitoramento transparente e controle rigoroso sobre a publicidade e oferta desses serviços. Caso contrário, o SUS corre o risco de transformar um acolhimento urgente em uma válvula de escape que alivia sintomas sem atacar as causas.


Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/04/sus-amplia-teleatendimento-de-saude-mental-a-pessoas-com-vicio-em-apostas.ghtml