A mais recente rodada da Quaest confirma algo que já vinha se desenhando nas últimas semanas: a disputa presidencial segue polarizada, mas com movimento de recomposição à direita que reduz margens e aumenta a incerteza estratégica do Planalto. Os números da pesquisa, feita entre 31 de julho e 3 de agosto com 2.004 entrevistados, não alteram a liderança de Lula, mas mostram sinais claros de recuperação de Flávio Bolsonaro em indicadores decisivos além das intenções de voto brutas.
No primeiro turno, a variação é modesta — Lula de 40% para 39% e Flávio de 28% para 30% —, mas suficente para reduzir a distância de 12 para 9 pontos. No segundo turno, a vantagem do presidente cai de oito para cinco pontos (45%/37% para 44%/39%). Esses movimentos estão dentro da margem de erro de dois pontos, mas o conjunto das medidas — incluindo reconhecimento do nome, redução de rejeição e aumento da convicção entre eleitores — sustenta a leitura de recuperação do senador.
Do lado da direita, a rearticulação tem componentes simbólicos e práticos. A reconciliação pública com Michelle Bolsonaro aparece como a primeira peça: a avaliação desse gesto é majoritariamente positiva na pesquisa, com taxas especialmente altas entre bolsonaristas e parcela relevante da direita não bolsonarista. A percepção de que o apoio de Michelle reforça as chances eleitorais de Flávio subiu de julho para agosto, de forma acentuada entre eleitores do núcleo bolsonarista. Ao mesmo tempo, a controvérsia judicial sobre a proibição da visita a Jair Bolsonaro reverberou como um catalisador de indignação contra o que parte do eleitorado entende como excesso institucional — um elemento que ajuda a explicar a movimentação em favor de Flávio muito mais do que episódios de retórica sobre as urnas.
Na ponta oposta, as medidas econômicas do governo ajudam a manter índices de aprovação superiores aos de abril, mas já não geram ganhos eleitorais crescentes. A aprovação do governo subiu de 43% em abril para níveis próximos de 48% em julho e manteve-se estável em agosto; a desaprovação segue em 47%. Programas como o Desenrola 2.0 e a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil estão presentes no radar do eleitorado, mas mostram queda no efeito político marginal: a percepção de que esses instrumentos são boas ideias ou de que beneficiaram diretamente as famílias diminuiu entre sondagens.
A economia, por sua vez, exibe sinais mistos. A maioria ainda sente que o custo de vida avançou — quase sete em cada dez percebem alta nos preços dos alimentos e 69% afirmam que o poder de compra é menor do que há um ano —, embora haja melhora nas expectativas de emprego e aumento da parcela que aposta em melhora da economia nos próximos 12 meses. O que permanece como principal limitação é a chamada "affordability": 55% dizem que a renda não avançou ou perdeu terreno para os preços, um indicador que rende pouco ao governo no curto prazo.
Outra variável que começa a pesar é a percepção da resposta do governo ao pacote tarifário anunciado pelos Estados Unidos. A avaliação desse episódio mudou de maneira desfavorável desde maio, com saldo que passa de levemente positivo para negativo — e isso corrói margem de autoridade do Executivo no discurso de defesa dos interesses nacionais, terreno que vinha sendo explorado como vantagem de campanha.
Por fim, a elevação do grau de definição do voto — 69% já dizem ter escolha consolidada — reduz o espaço para surpresas, concentrando a disputa em dois polos. Os independentes continuam sendo o maior bloco do eleitorado (32%), mas sem adesão firme: entre eles Lula lidera por pequena margem, e ampla parcela ainda se movimenta entre indecisos, abstenções e votos brancos ou nulos.
O retrato traçado pela Quaest é, portanto, de competição estabilizada, porém dinâmica: Lula mantém a dianteira, mas encontra limites de crescimento; Flávio recupera terreno graças a fatores de coesão conservadora e reações a decisões judiciais; e o eleitor médio continua ressentido com a falta de ganho real de renda. Num país onde o custo de vida define prioridades, a vantagem eleitoral dependerá de quem conseguir transformar percepção econômica e narrativa política em convicção estável até o fechamento da campanha.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/08/05/pesquisa-quaest-eleicoes-2026-analise-felipe-nunes-agosto-flavio-bolsonaro-lula.ghtml