A homologação, pelo Diretório Estadual do MDB de São Paulo, da candidatura de Felício Ramuth a vice na chapa de reeleição do governador Tarcísio de Freitas formaliza um movimento muito além da mera distribuição de postos. Trata-se da cristalização de um arranjo político que envolve histórico pessoal, disputa interna entre legendas e uma tentativa do MDB de recalibrar sua presença num tabuleiro em que São Paulo é sempre peça central.
Ramuth chega à condição de vice indicado pelo MDB depois de um processo previsível e tenso. Sua filiação ao partido, em março deste ano, foi fruto de contornos conflitivos com o PSD — partido ao qual pertencia e com o qual manteve atrito com o presidente Gilberto Kassab. No caminho, há um fio condutor: apoio a Tarcísio no segundo turno de 2022, participação na transição e a assunção da vice-governadoria em janeiro de 2023. Essa trajetória explica por que o nome do atual vice ecoou bem entre os dirigentes da coligação e acabou acolhido também pelo Republicanos nas convenções que formalizaram as candidaturas.
A sinalização pública do MDB, com a aprovação do nome pela Executiva estadual em 20 de julho e a homologação conjunta na convenção partidária no início de agosto, funciona como um recado interno e externo. Internamente, consolida o espaço do partido na coalizão e remunera um aliado que, apesar de ter obtido apenas o quarto lugar na disputa ao governo em 2022, manteve relevância política: dois mandatos como prefeito de São José dos Campos e formação técnica como engenheiro civil que, simbolicamente, ajudam a compor a narrativa de competência administrativa.
Externamente, no entanto, a movimentação expõe fragilidades. A disputa pelo posto de vice foi contesa — PSD, PL e MDB pleitearam o lugar — e nomes como o do presidente do PSD chegaram a demonstrar interesse. O PL tentou emplacar André do Prado, candidato ao Senado. Essas contendas deixam claro que, por trás da aparente unidade, existe um jogo de compensações e expectativas que pode alimentar ressentimentos caso as entregas eleitorais não correspondam.
Ao mesmo tempo, o MDB não se limitou a disputar o espaço do Executivo: a legenda homologou chapas proporcionais robustas — 86 candidatos a deputado estadual e 69 a deputado federal, com possibilidade de chegar a 91 para a Alesp até o fim do prazo das convenções. A composição do quadro respeita a cota mínima de cerca de 30% de mulheres prevista na legislação, mas o volume de candidaturas também revela uma estratégia clássica das grandes siglas: maximizar palanques e fatias de recursos e tempo de rádio e TV.
Há regras eleitorais que moldam esse desenho: em São Paulo, por conta do número de cadeiras em disputa — 70 vagas para a Câmara dos Deputados e 94 na Assembleia Legislativa — cada partido pode registrar até 71 candidatos a federal e 95 a estadual. As convenções têm vez até 5 de agosto, e o registro definitivo das chapas na Justiça Eleitoral vai até 15 de agosto, às 19h — prazos que mantêm a possibilidade de ajustes, trocas e desistências até quase o fim do processo.
Politicamente, a aposta do MDB em Ramuth é lógica: juntar experiência administrativa local com a visibilidade do atual vice-governador para segurar centros eleitorais e aparar arestas com aliados. Mas é também uma aposta de risco. A migração partidária recente e as ambições não satisfeitas de outros atores da coligação podem contagiar o desempenho coletivo. Além disso, a vasta lista de proporcionais implica disputas internas por recursos de campanha, o que pode tensionar a unidade necessária para uma reeleição segura.
Em suma, a oficialização da candidatura de Ramuth não é apenas a montagem de uma chapa; é a expressão de como o MDB pretende se reposicionar em São Paulo — usando um nome com trajetória local e capital político já parcialmente gasto em 2022 — e de como as negociações entre siglas continuarão a moldar as chances eleitorais da aliança nos próximos meses. Resta ver se a costura será forte o bastante para transformar alianças de conveniência em força eleitoral efetiva nas urnas.
Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2026/noticia/2026/08/03/mdb-oficializa-candidatura-de-ramuth-a-vice-na-chapa-de-tarcisio-a-reeleicao-em-sp.ghtml