Defesa das urnas e espetáculo de transparência: suficiente para conter a desinformação?

Presidente do TSE, Kássio Nunes Marques

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Defesa das urnas e espetáculo de transparência: suficiente para conter a desinformação?

Ao proclamar a urna eletrônica como 'patrimônio da democracia', o presidente do TSE aposta em exposição pública para reagir às acusações que vêm da família Bolsonaro — resta saber se isso apaziguará a polarização política

04/ago/2026 2 min de leitura 2 visualizações

A iniciativa anunciada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kássio Nunes Marques, para promover a Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação revela duas verdades sobre o momento político brasileiro: a primeira, óbvia, é que a defesa das urnas tornou‑se uma atividade institucional permanente; a segunda, mais inquietante, é que a simples demonstração técnica já não parece suficiente para silenciar duvidas e narrativas que circulam em meios políticos e entre eleitores.

Cobrado por colegas do Supremo a reagir com clareza às alegações que vêm de setores ligados ao ex‑presidente, Nunes Marques respondeu com uma sequência de ações públicas — abertura das urnas, demonstrações ao público, atividades educativas e visitas guiadas. O argumento central é de transparência: tornar o funcionamento do equipamento conhecido, auditável e sujeito ao escrutínio, como forma de reforçar a confiança no processo eleitoral.

Há mérito nessa estratégia. Mostrar o funcionamento do sistema a estudantes do ensino médio do Distrito Federal e à sociedade em geral pode desmistificar procedimentos técnicos para quem não vive a rotina da Justiça Eleitoral. A repetição de atos educativos, em parceria com tribunais regionais, tem potencial pedagógico que não deve ser subestimado. No entanto, pedagogia técnica dificilmente neutraliza narrativas políticas que se alimentam de desconfiança e de interesses eleitorais.

As acusações dirigidas pelo senador Flávio Bolsonaro, no mês passado, contra a suposta origem das urnas — vinculando‑as a empresas e relatórios internacionais — já foram desmentidas pelo próprio TSE, que em nota (publicada originalmente em 2020 e atualizada em 8 de julho de 2026) reafirmou que as urnas brasileiras não são fornecidas pela empresa mencionada. Ainda assim, as alegações ganharam circulação entre públicos mobilizados politicamente, o que indica que a verdade factual tem alcance limitado diante do poder de persuasão de lideranças políticas e de canais de comunicação que consolidam dúvidas.

É nesse ponto que a coluna sustenta a crítica: a Justiça Eleitoral pode e deve elevar o nível de transparência técnica, mas precisa complementar essa atuação com estratégias que atinjam os circuitos de formação de opinião que propagam desinformação. Exposições públicas, por si só, chegam aos já convencidos. Para penetrar bolhas de ceticismo, é preciso articular com atores locais, mídia regional, líderes comunitários e campanhas de informação contínuas, adaptadas a diferentes públicos e linguagens.

Também é necessário reconhecer o componente simbólico do discurso do presidente do TSE ao qualificar a urna eletrônica como patrimônio da democracia. A formulação pretende consolidar a urna como um bem coletivo e inegociável. Mas transformar esse enunciado em sentimento coletivo requer tempo: patrimônio se constrói com memória, confiança institucional e com a percepção de que resultados e procedimentos resistem a interesses particulares. Em um ambiente de acirramento eleitoral e com pré‑candidaturas oficializadas, como a do senador Flávio Bolsonaro em 25 de julho, essa construção simbólica enfrenta um teste severo.

Outro aspecto relevante é o gesto público do próprio autor das acusações. No domingo, o senador disse que aceitará o resultado das eleições de outubro e depositou confiança no TSE para atuar com imparcialidade. Essa declaração contém ambivalência: por um lado, reduz tensões retóricas; por outro, não elimina a eficácia das narrativas já plantadas. A defesa institucional precisa, portanto, ser dupla: técnica e política.

Em última instância, a eficácia da Semana Nacional dependerá menos do espetáculo de abertura das urnas e mais da capacidade da Justiça Eleitoral de transformar transparência em compreensão pública ampla, e de construir pontes com setores que hoje desconfiam do sistema. Sem esse esforço ampliado, a robustez técnica do equipamento continuará a conviver com um déficit de confiança que apenas exaspera a polarização brasileira.


Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/03/cobrado-por-colegas-do-stf-nunes-marques-diz-que-urna-eletronica-e-patrimonio-da-democracia-brasileira.ghtml