Na próxima quarta-feira (5), a Quaest divulga uma pesquisa que, pela própria janela temporal em que foi feita, promete refletir mais do que intenções de voto: captura um país em meio a episódios que podem redesenhar percepções eleitorais. As entrevistas ocorreram entre 31 de julho e 3 de agosto — período que abarcou a oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), a participação do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL e o desenrolar de investigações envolvendo Lulinha, filho do presidente Lula.
Esse conjunto de eventos torna a rodada da Quaest um termômetro politicamente contaminado por fatos recentes. A presença de Milei em São Paulo e o apoio explícito declarado ao senador Flávio Bolsonaro acrescentam uma camada internacional à campanha do PL: não se trata apenas de um gesto simbólico, mas de uma tentativa de transferir para o eleitorado brasileiro parte do fervor e da retórica que catapultaram o argentino. Para além do espetáculo, a pesquisa formula diretamente perguntas sobre esse apoio, sondando se ele incrementa as chances de voto em Flávio — uma preocupação legítima num ambiente em que a personalização e a identificação ideológica transnacional ganharam espaço.
Ao mesmo tempo, a pesquisa explora repercussões internas que já vêm provocando debates jurídicos e éticos. O uso de um vídeo gerado por inteligência artificial que simulou a imagem e a voz de Jair Bolsonaro na convenção do PL entra no questionário, justamente num momento em que há limitações judiciais sobre manifestações públicas do ex-presidente. A inclusão dessa pergunta é oportuna: testará até que ponto o eleitor aceita artifícios tecnológicos em campanhas e onde coloca o limite entre inovação e violação de normas que regulam o processo eleitoral.
Outro capítulo sensível levantado nas entrevistas é a proibição temporária de visitas ao ex-presidente, medida contestada por setores que a veem como excessiva e por outros que a consideram correta. A Quaest, ao colocar essas questões na ponta da caneta, força o eleitor a ponderar não só sobre narrativa, mas sobre regras institucionais e seu papel na disputa — algo que pode influenciar decisões em um eleitorado polarizado.
Não se pode, ainda, ignorar a dimensão das investigações autorizadas pelo ministro do STF André Mendonça sobre Lulinha. A Polícia Federal apura suposta atuação do filho do presidente junto a um lobista e à Dataprev, com suspeitas de tráfico de influência e corrupção. A defesa nega irregularidades. Em períodos eleitorais, suspeitas dessa natureza tendem a contaminar a agenda pública e a imagem do campo político adversário — mesmo sem condenações — o que exige cautela na leitura dos números: variações de intenção de voto podem refletir reação a essas notícias, e não apenas avaliação de propostas.
Um ponto operativo da pesquisa merece destaque: o levantamento incluiu, enfim, nomes que antes não figuravam em todos os cenários, como Clariana Barão (DC), e simulou duelos de segundo turno envolvendo Lula com Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Essa amplitude dá um retrato mais fiel da fragmentação atual, em que múltiplos projetos disputam espaço e onde a composição de alianças será decisiva.
Além de capturar sentimentos sobre apoios externos e casos jurídicos, a pesquisa pergunta sobre declarações de Flávio Bolsonaro relativas às urnas e sobre seu apelo a observadores internacionais — movimento que tenta colocar a questão da confiança nas instituições eleitorais no centro da narrativa da campanha.
Encomendado pela Genial Investimentos e registrado no TSE, o levantamento com 2.004 eleitores chega num momento de alta exposição midiática dos protagonistas. O desafio para quem interpreta esses números será separar o ruído do núcleo: distinguir efeitos conjunturais — reações imediatas a episódios e investigações — de tendências estruturais do eleitorado. A política brasileira, cada vez mais marcada por gestos performáticos e estratégias de comunicação, segue exigindo leitores atentos que não confudam admiração midiática com alteração duradoura de preferência eleitoral.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/03/quaest-pesquisa-presidencial-agosto.ghtml