Na hora da mudança: Brasil aposta na Índia enquanto tenta driblar o 'tarifaço' americano

Ministro Márcio Elias Rosa durante agenda pública antes da viagem à Índia

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Na hora da mudança: Brasil aposta na Índia enquanto tenta driblar o 'tarifaço' americano

Missão do ministro Márcio Elias Rosa busca mercados e insumos estratégicos, mas a diversificação enfrenta limites práticos e prazos longos

03/ago/2026 3 min de leitura 1 visualizações

A viagem do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, à Índia tem caráter explícito de resposta a um choque externo: os Estados Unidos aplicaram dois aumentos tarifários sobre produtos brasileiros — 25% por alegadas práticas desleais e 12,5% por falhas no combate a importações produzidas com trabalho forçado — e o governo busca alternativas comerciais. A missão, que passará por Mumbai, Nova Delhi e Jaipur, une pragmatismo econômico e estratégia geopolítica, mas também expõe contradições e desafios da agenda brasileira.

No plano objetivo, o calendário é claro: encontros com empresários dos setores de defesa, tecnologia, energia, infraestrutura, bens de consumo e fertilizantes. A escolha da Índia não é azarosa. Trata‑se de um mercado gigante e de um parceiro com intercâmbio comercial relevante — a corrente de comércio entre os dois países ultrapassou a casa dos US$ 15 bilhões em 2025, segundo o ministério. Ao mesmo tempo, a presença do ministro em Jaipur para a reunião de ministros do Brics mostra que Brasília busca operar em duas frentes: ampliar laços bilaterais e fortalecer coordenadas multilaterais com países emergentes.

Mas é preciso separar desejo de eficácia. A estratégia de diversificar mercados e reduzir dependência de parceiros tradicionais — sobretudo num momento em que os EUA representam o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China — é correta. Representantes do setor produtivo, como CNI e AmCham, já alertaram que os novos tarifários americanos atingem milhares de produtos e agravam as condições de concorrência. A pressão por abrir outros mercados é legítima e urgente. No entanto, a incapacidade de substituir mercados e cadeias de fornecimento da noite para o dia é um fator que a retórica governamental tende a subestimar.

O tema dos fertilizantes ilustra essa limitação. O Brasil importa mais de 90% do insumo consumido internamente, e metade desse volume vem hoje de Rússia e China. Buscar novos fornecedores — estratégia que já levou o chanceler a visitar Uzbequistão e Cazaquistão — é tecnicamente sensato para reduzir riscos durante crises geopolíticas. Mas firmar contratos, montar logística, adaptar padrões e assegurar competitividade de preços leva tempo e depende de investimentos privados e de política comercial coordenada. Não haverá solução instantânea apenas com visitas e memorandos.

Há também um elemento político: ampliar a atuação dentro do Brics e procurar acordos com países como Índia, China, Canadá e Japão serve para criar alternativas a uma economia global cada vez mais segmentada. Ainda assim, as negociações multilaterais e bilaterais exigem concessões e harmonização regulatória que nem sempre convergem com os interesses setoriais domésticos. A soma de interesses do agronegócio, da indústria de defesa, dos fornecedores de tecnologia e dos fabricantes de bens de consumo nem sempre se alinha com as prioridades de um parceiro em Nova Delhi.

Por fim, a operação de comunicação do governo busca transmitir a ideia de que o Brasil permanece fiel ao multilateralismo, mas ao mesmo tempo age com pragmatismo para proteger empresas e empregos. Resta ver se a combinação de diplomacia econômica, incentivos internos e engajamento empresarial será suficiente para amenizar o impacto imediato dos tarifários americanos. A diversificação é necessária; sua execução, porém, exige diagnóstico realista dos prazos, custos e obstáculos regulatórios.

A missão à Índia é um passo na direção correta, mas não substitui medidas domésticas de competitividade nem uma estratégia clara de curto prazo para mitigar o choque que já atinge milhares de produtos. Se o objetivo é transformar risco externo em oportunidade, Brasília precisa combinar diálogo internacional com políticas industriais objetivas e ação rápida junto ao setor privado — e admitir que ganhar novos mercados é maratona, não sprint.


Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/03/ministro-vai-a-india-em-busca-de-ampliar-comercio-em-defesa-tecnologia-e-industria-brasil-quer-diminuir-efeito-do-tarifaco-dos-eua.ghtml