A decisão anunciada por Cleitinho Azevedo de não disputar o governo de Minas Gerais reconfigura um tabuleiro eleitoral em que a vantagem numérica pode ser frágil. A pesquisa Quaest divulgada em julho, quando simulou cenários sem a presença do senador, coloca Alexandre Kalil numericamente à frente — 15% das intenções em dois cenários testados —, mas o diagnóstico geral é de uma eleição pulverizada e permeada por eleitores dispostos a mudar de opinião.
Os números expõem duas realidades simultâneas. Por um lado, há um líder simbólico: Kalil, com 15% nos cenários 4 e 5. Logo atrás, Patrus Ananias aparece com 13% e Mateus Simões com 9%. Por outro, 27% dos entrevistados permanecem indecisos, enquanto entre 23% e 24% declaram que votarão branco, nulo ou que não vão votar. Esse conjunto — quase metade do eleitorado potencial — revela que as intenções registradas hoje são provisórias e que a disputa continua em aberto.
A própria dinâmica interna dos cenários de segundo turno confirma a volatilidade. Em uma das simulações, Mateus Simões aparece à frente com 30% contra 29% de Kalil; em outra, Patrus e Mateus empataram tecnicamente em 30% cada. Esses empates técnicos e a presença significativa de indecisos (18–19% nas simulações de turno) mostram que a ausência de Cleitinho não converte automaticamente seus supostos eleitores para um único pretendente. Ao contrário: abre espaço para negociações, recuos e rearranjos de alianças que ainda vão moldar a corrida.
Outro dado que merece atenção é a rejeição. Kalil, apesar de liderar, tem índice de rejeição de 39% — maior que o de outros nomes citados —, o que indica que sua vantagem numérica pode se esboroar caso o campo opositor consiga consolidar uma alternativa única e explorar essa vulnerabilidade. Patrus registra 35% de rejeição; Mateus, 12%. Cleitinho, mesmo ausente, mantém 20% de rejeição, curiosamente o mesmo percentual apurado em abril. Rejeições altas costumam ser determinantes em segundo turno, quando eleitores procuram concentrar votos contra o candidato que não desejam ver eleito.
A pesquisa também aponta uma tendência de maior maleabilidade do eleitorado mineiro: 63% afirmam que a escolha ainda pode mudar — uma ligeira alta frente a abril. Essa maleabilidade é o oxigênio das campanhas que têm recursos e capacidade organizacional para persuadir — e o aviso de que nada está sacramentado.
É preciso, ainda, situar a pesquisa metodologicamente. O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos, ouviu 1.482 eleitores a partir de 16 anos entre 22 e 26 de julho, tem margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O registro na Justiça Eleitoral é MG-034/90/2026. Esses parâmetros dão robustez estatística aos resultados, mas não anulam as limitações clássicas de pesquisas em ambientes de alta volatilidade política.
Há, por fim, um elemento humano que atravessa a política: a decisão de Cleitinho, comunicada em vídeo e enquadrada por lideranças do partido como consequência de um momento pessoal difícil — ele perdeu um irmão em julho. A saída coloca o Republicanos diante do desafio de reorganizar estratégias e apoios, ao mesmo tempo em que permite aos demais atores recalibrar ambições.
Em suma: a foto agora mostra Kalil à frente numericamente; o filme, porém, ainda está em produção. Com grande parcela do eleitorado indecisa, altos índices de rejeição e cenários de segundo turno tecnicamente equilibrados, a campanha que começa oficialmente nos próximos meses terá de disputar corações e, principalmente, mentes. Quem conseguir reduzir rejeição e transformar indecisos em voto consolidado terá a chave para destravar o que, até aqui, é apenas um retrato provisório de Minas Gerais.
Fonte: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2026/noticia/2026/08/03/quaest-em-mg-veja-cenarios-da-pesquisa-para-governador-em-julho-sem-a-presenca-de-cleitinho.ghtml