A agenda que reúne o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito Ricardo Nunes com o ministro das Relações Exteriores do Chile, Francisco Mackenna, não é um encontro puramente protocolar. Trata-se de mais um movimento calculado de um governo estadual que busca consolidar papel de protagonista nas pautas de segurança e economia na região — e, ao mesmo tempo, de costurar afinidades com lideranças de direita que estão em ascensão no Cone Sul.
Informada pela presença do embaixador e do cônsul do Chile em São Paulo, além do chefe da assessoria internacional do governo paulista, a visita tem na segurança pública um dos itens centrais. A intenção declarada é apresentar iniciativas do estado, trocar experiências sobre enfrentamento ao crime e explorar possibilidades de cooperação. Essa pauta é legítima e necessária: criminosos e organizações transnacionais não respeitam fronteiras estaduais ou cantonais, e a troca de práticas e inteligência é, em tese, desejável.
Mas o contexto político que envolve o encontro exige olhar crítico. A conversa ocorre em um momento em que governos e lideranças que defendem medidas de endurecimento penal e políticas de mão dura contra a criminalidade ganham visibilidade na região. Em janeiro, o presidente Lula encontrou-se com o presidente do Chile, José Antonio Kast, e tratou do combate ao crime organizado. Do outro lado, figuras como Javier Milei — recebido em julho na sede do governo paulista, agraciado com a Ordem do Ipiranga e presente em atos políticos que criticaram o governo federal e o ministro Alexandre de Moraes — representam uma corrente que combina liberalismo econômico com discurso punitivista.
Não é surpresa, então, que interlocutores do governo paulista falem em convergência de visões entre São Paulo, Buenos Aires e Santiago, sobretudo em economia e segurança. A dimensão comercial também pesa nessa equação: o Chile aparece como o terceiro principal parceiro comercial de São Paulo na América Latina e o nono no plano global; reciprocamente, São Paulo é o principal parceiro chileno entre os estados brasileiros. A cooperação técnica e econômica tem sentido prático e objetiva benefícios concretos. Mas é preciso separar o que é parceria pragmática do que pode ser construção de uma frente político-ideológica.
Algumas perguntas permanecem sem resposta: até que ponto acordos sobre segurança serão pautados por políticas de redução de ofensivas em direitos civis? Haverá troca efetiva de inteligência e boas práticas — com avaliações de impacto e transparência — ou prevalecerão medidas simbólicas de endurecimento penal? A experiência de políticas de segurança que priorizam encarceramento em massa em outras jurisdições tem mostrado custos sociais e orçamentários significativos; qualquer transferência de modelo deveria vir acompanhada de avaliações sérias.
Do ponto de vista eleitoral e de construção de influência, o movimento é estratégico. Governos estaduais que ampliam interlocução externa ampliam sua visibilidade e reforçam narrativas de governabilidade. Para um governador que já promoveu encontros com figuras políticas da direita regional, a interlocução com o Chile soma legitimidade internacional e, potencialmente, apoio político no cenário doméstico.
Ao leitor resta acompanhar se a cooperação produzirá resultados mensuráveis na redução da violência e na melhoria da segurança — e não apenas declarações e protocolos fotográficos. A transparência sobre acordos, o respeito a garantias individuais e a avaliação das políticas importadas devem ser itens centrais nesse diálogo. Sem esses cuidados, corremos o risco de transformar parcerias comerciais e diplomáticas em palco para afirmações ideológicas cujo custo recai, em última instância, sobre cidadãos e serviços públicos.
A reunião de quarta-feira é, portanto, um teste: será uma troca técnica entre governos que enfrentam desafios comuns ou mais um capítulo de uma guinada política que busca formalizar convergências com um arco de lideranças de direita na região? As respostas dependerão dos detalhes dos acordos e da forma como serão implementados — e esses detalhes ainda não foram tornados públicos.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/blog/julia-duailibi/post/2026/08/05/apos-reuniao-com-milei-tarcisio-e-nunes-se-reunem-com-chanceler-do-chile-em-sp.ghtml