A promessa de eliminar gastos correspondentes a 1,5% do Produto Interno Bruto, anunciada pela equipe econômica do pré-candidato Flávio Bolsonaro, tem o mérito de colocar a disciplina fiscal no centro do discurso. Resta saber, porém, se a mistura de receitas extraordinárias e cortes de gestão que a proposta privilegia é suficiente — e sustentável — para cumprir a meta anunciada. Em entrevista nesta segunda-feira (3), a coordenadora do plano econômico detalhou quatro eixos: criar um órgão superior de governança fiscal, revisar o arcabouço que orienta a trajetória da dívida, promover o corte equivalente a cerca de R$ 190 bilhões com base no resultado de 2025 e aplicar um “choque de gestão” na máquina pública. O anúncio traz elementos conhecidos do repertório neoliberal aplicado no Brasil nos últimos anos, mas deixa lacunas importantes que merecem escrutínio.
O primeiro ponto a observar é a natureza das propostas financeiras colocadas na mesa. Entre as medidas citadas para alcançar os números estão a securitização da dívida ativa, a constituição de um fundo imobiliário para monetizar imóveis da União, antecipação de royalties, revisão de empresas estatais dependentes e ampliação de concessões e parcerias público-privadas. A securitização, segundo a dirigente, poderia render entre R$ 200 bilhões e R$ 400 bilhões — valores que, se confirmados, ultrapassariam a meta nominal de 1,5% do PIB. Mas aqui entra uma distinção crucial: receitas provenientes de securitização ou da venda/arrendamento de ativos são, em regra, extraordinárias. Elas aumentam o caixa no curto prazo, mas não alteram a estrutura de despesas correntes que, na maior parte, determina a sustentabilidade fiscal ao longo do tempo.
Contar com receitas one-off para cumprir metas de ajuste permanente é artifício recorrente em propostas eleitorais, porque melhora indicadores imediatos sem tratar da raiz do problema. A diferença entre melhorar o resultado nominal e reverter a tendência da razão dívida/PIB está justamente na capacidade de reduzir despesas recorrentes ou fomentar crescimento elevado e duradouro. A proposta reconhece a necessidade de rever o arcabouço fiscal — o que indica consciência do desafio estrutural —, mas não detalha quais parcelas das despesas permanentes serão efetivamente cortadas. Isso limita a credibilidade da promessa.
Há também riscos jurídicos e operacionais relevantes. Monetizar um enorme estoque de imóveis da União — mais de 700 mil, conforme a própria estimativa citada — exige inventário patrimonial confiável, avaliações, procedimentos de alienação compatíveis com a legislação e, em muitos casos, mudanças normativas. Procedimentos de securitização em escala bilionária exigem bases legais robustas e podem suscitar contestações. A revisão de estatais, citando-se o saldo deficitário dos Correios em 2025, é plausível; porém, fechar lacunas de governança e implementar privatizações ou reestruturações costuma ser mais demorado e politicamente custoso do que a narrativa pública sugere.
O discurso sobre “recuperar credibilidade” antes de cortar gastos tem razão de ser: mercados e investidores reagem a sinalizações convincentes. Ainda assim, credibilidade não se constrói apenas com anúncios e instrumentos financeiros; ela depende de um projeto coerente que mostre quais cortes são permanentes, como serão protegidos programas sociais essenciais e que marcos institucionais serão ajustados para evitar reversões.
Politicamente, a exposição de uma economista com experiência em Caixa Econômica Federal e no Ministério da Economia como articuladora do plano sinaliza que a campanha valoriza conhecimento técnico. Ela aparece também como opção para compor a vice na chapa, o que sugere que o tema econômico terá protagonismo na agenda do candidato. Mas, em um país onde o eleitorado exige detalhes concretos sobre emprego, renda e serviços públicos, o desafio será transformar estimativas de receitas eventuais e promessas de modernização administrativa em um roteiro crível e operacionalizável.
Em suma: há pontos sensatos na proposta — como a preocupação com governança fiscal e modernização administrativa —, porém a ênfase em receitas não recorrentes e a ausência de um mapa claro de cortes permanentes deixam a meta de 1,5% do PIB mais próxima de uma declaração de intenção do que de um plano fechado. Para que o ajuste seja de fato duradouro e socialmente aceitável, será preciso mais transparência e especificidade sobre quais despesas serão revistas e como serão preservadas as prioridades públicas.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/03/flavio-bolsonaro-economia-corte-gastos.ghtml