Convenções à prova de narrativa: o que disseram e o que querem esconder
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Convenções à prova de narrativa: o que disseram e o que querem esconder

Entre jingle, AI e promessas de ordem, as convenções revelam estratégias — e lacunas — das candidaturas que vão disputar a Presidência

04/ago/2026 3 min de leitura 1 visualizações

As últimas semanas mostraram que o pontapé inicial da corrida presidencial não foi apenas protocolares: foi performático. Cinco nomes entre os mais competitivos nas pesquisas — Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) — formalizaram candidaturas em atos que combinaram apelos emocionais, repertório de governo e um cardápio previsível de promessas de segurança e gestão. Um detalhe moderno também se insinuou: jingles e produção musical, alguns com uso de inteligência artificial, já circulam antes mesmo do início oficial da campanha, sinalizando que a disputa será travada com ferramentas tecnológicas desde cedo.

Mais do que propostas, as convenções serviram para mapear narrativas. Flávio Bolsonaro fez do legado familiar a espinha dorsal de seu discurso, usando imagem gerada por IA para ressuscitar simbolicamente a figura do pai e posicionando sua candidatura como missão redentora e antagônica ao PT. A retórica de “devolver o Brasil aos brasileiros” e a dicotomia moral entre o “bem” e o “mal” são claras estratégias de mobilização: menos plano de governo, mais identificação moral. Entre as medidas apresentadas, destaque para propostas de endurecimento penal — redução da maioridade penal para 14 anos em casos de estupro e castração química para pedófilos — que colocam o tema da segurança no centro, ainda que careçam de discussão técnica e constitucional aprofundada.

No outro polo do espectro, Lula optou por um lançamento calcado em currículo: lembrou trajetórias e obras de governo como prova de que não precisa “inventar” promessas. Do discurso emergem prioridades concretas — educação, políticas para idosos e investimentos em defesa e tecnologia, incluindo produção nacional de drones e exploração de terras raras — além do compromisso explícito com medidas de proteção às mulheres, como o pacto contra o feminicídio e regras para uso do PIX em pensões. A tônica é a legitimação pelo feito, com a advertência política de que reformas mais ousadas serão necessárias para impedir o retorno da extrema-direita.

Renan Santos tentou esculpir um lugar próprio: rejeitou rótulos de “terceira via” e disse disputar como expressão de uma geração. Sua narrativa mistura autoconfiança e confronto — atacou figuras como Sérgio Moro e Flávio Bolsonaro — e apresentou metas ambiciosas (reduzir homicídios para menos de 10 mil ao ano, juros abaixo de 6%, alfabetizar 90% das crianças). A peça central é um chamado ao “sacrifício” geracional para uma transformação econômica em 30 anos, ideia que precisa agora se traduzida em viabilidade eleitoral e técnica.

Zema e Caiado apostam no repertório do gestor. O ex-governador mineiro colocou a experiência administrativa e a gestão “sem rabo preso” como diferencial e propôs medidas duras de segurança — tratar facções como organizações terroristas e isolar líderes em um “superpresídio” na Amazônia, inspirado em práticas internacionais. Caiado, por sua vez, capitalizou quatro décadas de vida pública e o que descreve como sucesso em Goiás, apresentando-se como alternativa à polarização e desafiando adversários a debates. Em ambos, a combinação de pragmatismo econômico e moral punitivista aparece com força.

Há, portanto, um mapa programático inicial: segurança dura, gestão técnica e apelos morais contra a corrupção e a “ameaça” adversária. O que não se viu nas convenções foi uma conversação detalhada sobre implementação, custos e limites jurídicos de várias das propostas mais extremas — fatores que, em campanha, tendem a ser relegados ao maniqueísmo retórico e depois reaparecem no dia a dia governamental.

O calendário também pesa: as legendas têm até 5 de agosto para fechar candidaturas e o registro vai ao TSE até 15 de agosto. Até lá, as imagens geradas por inteligência artificial, os jingles que já circulam e os slogans vão disputar terreno com a necessidade de apresentar planos críveis. Resta saber se os discursos se transformarão em projetos de Estado ou permanecerão, como até agora, formatos de palco — eficientes para angariar voto, insuficientes para governar.


Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/03/convencoes-partidarias-veja-o-que-disseram-os-presidenciaveis-ao-lancar-suas-candidaturas.ghtml