Adolescência criminalizada: a PEC que troca soluções por retórica punitiva

CCJ da Câmara aprova PEC que reduz maioridade penal: como votaram os deputados

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Adolescência criminalizada: a PEC que troca soluções por retórica punitiva

A aprovação na CCJ desloca o debate da segurança pública para a arena política, mas não esclarece custos nem eficácia

15/jun/2026 4 min de leitura 1 visualizações

Um atalho constitucional que não resolve

A aprovação, nesta quarta-feira, do parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para uma PEC que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos marca mais um capítulo da ofensiva legislativa por respostas imediatas ao problema da violência. Foram 44 votos a favor e 18 contra entre os membros da CCJ — um apoio relevante no colegiado que agora dá margem para a criação de comissão especial e, depois, para que o texto vá ao plenário. Mas o ritmo acelerado das votações não substitui o debate técnico sobre eficácia, custos e efeitos colaterais dessa mudança constitucional.

O mapa político do avanço

O placar interno mostra que a proposta encontrou coesão em partidos de perfil mais conservador e pró-lei-e-ordem: todos os 13 deputados do PL na CCJ votaram a favor, assim como os integrantes do União, PP, Republicanos, Podemos, MDB e Solidariedade presentes na comissão. No campo oposto, a bancada do PT na CCJ votou unicamente contra, assim como os membros do PCdoB, PDT e Rede. O PSD registrou votação dividida.

Esse alinhamento revela que a maioridade penal virou um elemento de disputa partidária e eleitoral. Para partidos e deputados que buscam se identificar com a agenda da segurança pública dura, a proposta é combustível político — ainda que não necessariamente resposta técnica. A tramitação agora segue para uma comissão especial, a ser formada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e só depois poderá ir ao plenário, onde exigirá 308 votos em dois turnos para alterar a Constituição. Mesmo com o avanço na CCJ, a eventual aprovação final é tudo menos automática.

Impactos jurídicos e institucionais

Mudar o artigo 228 da Constituição para considerar penalmente imputáveis pessoas a partir dos 16 anos é redefinir estruturas jurídicas e institucionais consolidadas. A legislação especial que hoje trata de adolescentes pressupõe medidas socioeducativas, com ênfase em reabilitação e proteção de direitos. Transformar 16 e 17 anos em sujeito da lei penal comum implica em revisões profundas na atuação do Ministério Público, Defensoria, varas da infância e juventude, e no sistema prisional.

É impreciso supor que a mera alteração da idade terá efeito linear sobre as taxas de criminalidade. Estudos internacionais e experiências brasileiras anteriores apontam que endurecimento punitivo raramente soluciona raízes do crime — pobreza, exclusão, falta de escola e emprego — e pode agravar violação de direitos. Ao deslocar adolescentes para o sistema penal adulto, a PEC tende a aumentar contenciosos processuais, deslocar recursos e criar novos gargalos na Justiça e nas penitenciárias.

O custo econômico oculto da opção punitiva

A decisão tem consequências fiscais que o debate público tem ignorado. A ampliação da população sujeita ao Código Penal e ao sistema prisional exige mais gastos com infraestrutura carcerária, custas judiciais, defensoria pública e execução penal. Além disso, jovens condenados ao sistema adulto têm maiores chances de reincidência, o que pode ampliar custos futuros de segurança pública e impacto social negativo sobre comunidades inteiras.

Por outro lado, políticas de prevenção demandam investimentos em educação, assistência social, programas de aprendizagem e medidas socioeducativas eficazes — despesas que aparecem no curto prazo, mas costumam ter retorno em redução de violência no médio e longo prazo. A escolha entre endurecimento e prevenção é, portanto, também uma escolha orçamentária e de prioridade pública. O debate que se avizinha na comissão especial deveria, ao menos, confrontar esses trade-offs com estimativas fiscais e avaliações de impacto, não apenas convicções políticas.

Risco de politização eleitoral e internacional

A proposta se insere num cenário de forte polarização política e risco de instrumentalização eleitoral. Líderes e partidos podem usar a PEC como bandeira para sinalizar 'respostas duras' sem ter um plano concreto de implementação. Isso tende a produzir mais retórica do que políticas integradas. Além disso, há potencial custo de imagem internacional: reduzir a maioridade penal contraria tratados e recomendações de organismos de direitos humanos que privilegiam medidas socioeducativas e proteção de jovens.

O que está em jogo além do voto

Do ponto de vista prático, três pontos merecem atenção no debate que virá:

  • Capacidade do sistema: o Estado tem estrutura para julgar, encarcerar e ressocializar adolescentes em contexto adulto? A resposta prática é central para evitar agravamento de violações e sobrecarga institucional.

  • Evidência de eficácia: existe base empírica robusta que comprove que rebaixar a maioridade reduz delitos de forma sustentável? A literatura é diversa e aponta que, isoladamente, medidas punitivas têm eficácia limitada.

  • Alternativas integradas: quais programas de prevenção, educação e inclusão social serão priorizados? Se a PEC vier sem um pacote de políticas públicas, será apenas uma mudança simbólica com custos reais.

Conclusão: janelas de política pública, não atalhos

A aprovação na CCJ abre uma importante etapa legislativa, mas não resolve o cerne da questão: como reduzir violência com gestão pública eficiente e respeito a direitos. Reduzir a maioridade penal pode satisfazer apelos punitivos imediatos, porém tende a internalizar custos econômicos e sociais que pesam sobre o Estado e, sobretudo, sobre famílias e comunidades marginalizadas.

Se a Câmara der andamento à PEC, cabe aos parlamentares — e à sociedade — exigir que o debate ultrapasse a dramaturgia punitiva e se debruce sobre dados, impactos e alternativas. A política responsável exige confrontar sentimentos de insegurança com diagnósticos técnicos e escolhas orçamentárias claras. Trocar políticas públicas por uma reforma constitucional que promete dureza e entrega poucos instrumentos de prevenção pode ser o atalho mais caro que a democracia pagará nos próximos anos.

É possível combinar rigor com justiça: a aposta sensata é investir em prevenção, fortalecimento das varas da infância e juventude, e em programas socioeducativos bem avaliados — e não apenas redefinir fronteiras constitucionais para acomodar pânicos eleitorais.