A Postal Saúde, administradora do plano de assistência dos empregados dos Correios e seus dependentes, encerrou 2025 com prejuízo contábil de R$ 844 milhões — um sintoma claro de que a deterioração financeira da estatal está reverberando diretamente sobre a proteção social dos seus trabalhadores. Mais do que um número, esse resultado revela um ciclo perigoso: empresa pública em dificuldades, repasses interrompidos e um plano cujo equilíbrio depende quase que exclusivamente do fluxo de caixa do mantenedor.
Os demonstrativos da operadora mostram que ela reconheceu R$ 865 milhões em receitas que não espera mais receber dos Correios. Essa decisão contábil segue a elevação das provisões para perdas, que saltaram de aproximadamente R$ 350,3 milhões em 2024 para cerca de R$ 857,5 milhões em 2025. Em outras palavras, a Postal Saúde teve de assumir que grande parte do que lhe era devido já não é recuperável — reflexo direto dos sucessivos resultados negativos na companhia maternal, que acumula 15 trimestres de prejuízos.
O impacto patrimonial é igualmente grave. Os ativos da operadora encolheram de R$ 557 milhões para R$ 193 milhões, redução de 65% (cerca de R$ 364 milhões). Ao mesmo tempo, o passivo saltou de R$ 568 milhões para R$ 1,1 bilhão, acréscimo na ordem de 85%. Esse movimento não é apenas técnico: traduz a utilização de reservas e caixa para pagar compromissos imediatos e a postergação de dívidas junto à rede credenciada.
Houve, ainda, um aporte dos Correios em 13 de janeiro que, segundo a Postal Saúde, cobriu algo próximo de 50% dos passivos em aberto. O valor, contudo, não foi divulgado. A empresa classifica esse repasse como uma “sinalização de regularidade” que viabilizou o início de negociações com fornecedores de serviços médicos. Resta saber se essa regularidade será sustentável: a própria operadora adverte nas notas explicativas sobre o risco à continuidade das operações, dado o nível de dependência dos repasses do mantenedor.
Os sinais de desgaste já são percebidos pelos beneficiários. Usuários relataram dificuldades ao utilizar parte da rede credenciada, e as queixas registradas na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aumentaram 44% em relação ao primeiro semestre de 2024. Esse dado é particularmente preocupante porque traduz impacto real na prestação de serviços de saúde — não apenas nas contas da empresa.
Há uma dimensão política e de governança clara nessa equação. A Postal Saúde foi criada em 2013 com mandato de operar os benefícios médicos, hospitalares e odontológicos dos empregados dos Correios. A solução emergente — transferir recursos do orçamento da empresa pública para mitigar a crise do plano — levanta questões sobre responsabilidade legal e financeira do Estado e da própria estatal. A operadora aponta a necessidade de que a “Empresa Pública garanta legalmente e financeiramente os riscos da Postal Saúde perante a Autarquia reguladora”. É uma chamada para que o debate sobre sustentabilidade do benefício saia do terreno técnico e entre no campo das decisões políticas.
Do ponto de vista prático, há três problemas imediatos a enfrentar: 1) restaurar um fluxo previsível de repasses para que a operadora honre contratos com prestadores; 2) proteger os usuários para que a redução de ativos e o aumento de passivos não signifiquem perda de acesso a serviços essenciais; 3) estabelecer um plano de governança e contingência que diminua a exposição unilateral da Postal Saúde às finanças dos Correios.
Sem essas providências, o que se desenha é um processo de erosão do plano que já começou a impactar beneficiários e fornecedores. A situação exige respostas rápidas e transparentes — e também um debate público sobre a solução de longo prazo: reestruturação dos fluxos financeiros, eventual aporte extraordinário ou mudanças no modelo de financiamento. A vida dos trabalhadores dos Correios e de suas famílias não pode ficar refém das oscilações contábeis de uma estatal em dificuldades.
Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/03/plano-de-saude-dos-correios-tem-prejuizo-de-r-844-milhoes-em-2025.ghtml