A pré-campanha eleitoral transformou-se em um espetáculo de produção digital: vozes fabricadas, cantorias que nunca ocorreram e personagens colocados em cenas fictícias. Políticos, partidos, aliados e apoiadores usam ferramentas de inteligência artificial para multiplicar narrativas — das peças de humor aos ataques diretos — e testam os limites da regulação e da credulidade pública.
Os exemplos são variados e já fazem parte da rotina: clipes que mostram políticos em situações inusitadas, jingles compostos por algoritmos, vídeos que simulam a imagem e a voz de figuras públicas e montagens para criticar adversários. Levantamento do Observatório IA nas Eleições apontou um aumento significativo dessa produção no início do ano — com média diária 50% maior que no período eleitoral de 2024 — e dados preocupantes: 45% do material analisado foi classificado como desinformativo e 73% das peças não indicavam o uso de inteligência artificial.
O avanço da tecnologia traz eficiência: mensagens adaptadas a públicos específicos, conteúdos repetidos com pequenas variações e a sensação de que o candidato está presente em muitos lugares sem precisar gravar nada. Para analistas como Joscimar Silva, da UnB, essa velocidade e baixo custo ampliam o alcance e potencializam o microdirecionamento, criando bolhas de realidade que reforçam narrativas e dificultam o discernimento do eleitor.
A resposta institucional não ficou apenas no campo da retórica. O Tribunal Superior Eleitoral e a Advocacia‑Geral da União firmaram cooperação e divulgaram orientações sobre boas práticas, recomendando identificação explícita do uso de IA e canais de denúncia, como o Siade e o aplicativo Pardal. A resolução eleitoral exige sinalização acessível quando a tecnologia foi usada de forma significativa e proíbe o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas, mesmo com autorização da pessoa representada.
Há novidades concretas nas regras: proibição de nova publicação de conteúdos sintéticos nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas seguintes; exigência de marca‑d’água, aviso inicial em áudios e audiodescrição para imagens estáticas; e maior responsabilidade atribuída às plataformas. Especialistas, como Stefani Juliana Vogel, observam que a norma não elimina todo uso eleitoral de IA, mas amplia mecanismos de remoção e controle.
Na prática, a linha entre sátira legítima e manipulação ilegal é tênue. Juristas como Emma Roberta Bueno ressaltam que o que vale para a campanha vale para a pré‑campanha: conteúdo fabricado precisa ser identificado para que o eleitor saiba que está diante de uma peça artificial. Alexandre Basílio Coura lembra que jingles ou animações podem ser legais se claramente humorísticos, mas recriar a voz ou a imagem real de alguém para fazê‑lo dizer ou cantar algo que não disse é terreno perigoso e com alto risco de ser enquadrado como deepfake.
Casos concretos ilustram o desafio: vídeos exibidos em convenção, jingles com vozes sintéticas, montagens que remontam falas fora de contexto e publicações de apoiadores que usam IA sem sinalizar. A reação da Justiça pode ser rápida — como a determinação de Alexandre de Moraes solicitando esclarecimentos sobre a autorização para uso de imagem e voz em um vídeo — mas a fiscalização esbarra no volume e na velocidade da circulação.
A regulação e a atuação das plataformas são parte da solução, mas não bastam. É necessário combinar fiscalização com educação midiática, transparência nos processos de produção e vigilância sobre possíveis esquemas de impulsionamento coordenado por redes de apoiadores. Se a tecnologia democratizou a produção de conteúdo, também colocou os eleitores diante de um novo imperativo: checar, questionar e exigir clareza. Sem isso, a campanha sintética terá efeito prático: tornar a escolha do eleitor mais difícil numa paisagem onde realidade e montagem competem em igual intensidade.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/05/pre-campanha-presidenciaveis-ia.ghtml