O retorno do Judiciário após o recesso traz consigo um roteiro que mistura prevenção institucional e pressão política. No centro dessa peça está o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, convocado por ministros do Supremo Tribunal Federal a sinalizar com clareza a inviolabilidade das urnas eletrônicas e a aplicação rigorosa das regras sobre o uso de inteligência artificial nas campanhas.
Há duas frentes que explicam esse chamado à ação. A primeira é antiga: o risco de deslegitimação do sistema eleitoral. Ministros do STF avaliam que é imprescindível uma demonstração pública e convincente de que as urnas não podem ser fraudadas electronicamente — sobretudo porque, durante o recesso, figuras da família Bolsonaro voltaram a levantar dúvidas sobre o equipamento e o processo. Flávio Bolsonaro chegou a aventar a presença de urnas “da Venezuela” no Brasil e, em seguida, Eduardo Bolsonaro falou em fraudes. Esse repertório de suspeitas remete ao debate que permeou as eleições de 2018 e 2022 e alimenta um clima de desconfiança que corrói a autoridade do próprio Tribunal.
A resposta escolhida pelo TSE tem um perfil simbólico e técnico ao mesmo tempo: a abertura pública de uma urna eletrônica com desmontagem transmitida em rede nacional. Passar da cerimônia fechada das eleições anteriores para um procedimento ao vivo é uma resposta direta à necessidade de demonstrar processualidade e transparência. O gesto, embora não substitua auditorias técnicas e perícias, tem valor pedagógico: permite ao público ver etapas do equipamento que são centrais para a credibilidade do resultado.
A segunda frente envolve a novidade perturbadora do debate eleitoral contemporâneo: conteúdos gerados por inteligência artificial. Na convenção do PL, foi exibido um vídeo criado por IA em que o ex-presidente Jair Bolsonaro aparece declarando apoio ao filho e criticando sua condenação. Outros vídeos semelhantes circularam nos últimos dias. O Partido dos Trabalhadores acionou o TSE contra essa prática, invocando a resolução que proíbe o uso de recursos de IA para atacar adversários ou beneficiar candidatos.
Aqui está o nó civilizacional: tecnologias que ampliam a capacidade de persuasão tornam-se também ferramentas de erosão da verdade pública quando usadas sem limites. A resolução do tribunal busca circunscrever esse risco, mas sua eficácia depende não apenas da existência da norma, e sim de sua aplicação. Ministros do STF e do TSE enxergam nos vídeos do PL uma transgressão clara à regra, e a expectativa pública é que Kássio Nunes Marques imponha sanções — advertências ou outras medidas administrativas — contra o partido e o candidato apontado.
Há, no entanto, uma tensão entre o simbólico e o jurídico. Demonstrar uma urna ao vivo tem valor comunicacional; punir o uso de IA exige decisões técnicas e jurídicas que resistam a contestações e sirvam de precedente. Além disso, a resposta do TSE precisa calibrar firmeza e isonomia: não basta repreender atos isolados sem estruturar mecanismos de prevenção e detecção sistemáticos para a próxima campanha.
Também é preciso reconhecer os limites institucionais: o presidente do TSE ainda não sinalizou qual será sua decisão sobre a ação do PT, e um passo precipitado poderia ser explorado politicamente. Ao mesmo tempo, a inação tem custo real: permitir que conteúdos gerados por IA circulem sem consequências é abrir espaço para uma desinformação mais sofisticada e difícil de controlar.
O cenário desenhado nos últimos dias exige dos tribunais duas atitudes complementares: mostrar, de maneira compreensível ao cidadão, como os processos eleitorais funcionam; e aplicar as regras com clareza para que a tecnologia não se torne instrumento de manipulação eleitoral. O que está em jogo não é apenas a regularidade de uma eleição, mas a capacidade das instituições de manterem a autoridade numa era em que a realidade pode ser fabricada com um clique. Kássio Nunes Marques tem, portanto, uma oportunidade institucional e política: reforçar a confiança pública com transparência e, ao mesmo tempo, estabelecer limites incisivos ao uso indevido da inteligência artificial nas campanhas.
Fonte: https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2026/08/03/judiciario-volta-do-recesso-com-ministros-do-stf-esperando-de-nunes-marques-defesa-enfatica-das-urnas-e-punicao-por-ia-do-pl.ghtml